Subscribe:

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Igreja Cristã virtuosa, quem a achará?

Igreja Cristã virtuosa; quem a achará?

(Davi Oliveira)


1) Introdução.

Não tenho intenção de achar a igreja “ideal”, pois esta não existe; mas apontar, de maneira isenta, para aquela que tenha as características que a meu ver, mais se aproxima das palavras de seus primitivos idealizadores, e manifestar o meu desejo, mesmo que subconsciente, de encontrar uma igreja mais próxima da Verdade. Isso está sendo uma utopia para mim.

Cristo não deixou nenhum modelo de organização religiosa; pelo contrário, desfez, atacando p’ra valer o existente em seu tempo de encarnação. Tudo o que existe veio depois de sua morte e ressurreição. Ao longo dos séculos, a chamada igreja cristã sofreu, por intervenções humanas, todas as transformações possíveis, até chegar nos modelos atuais.

A partir do Pentecostes, a Igreja passa a ser dirigida pelos “Pais da igreja”; homens que receberam as instruções diretamente de Cristo e as passaram para a primeira geração de discípulos de mestres humanos.

Na época dos apóstolos, as comunidades cristãs eram locais e independentes, unidas apenas na fé em Cristo e seu evangelho. Sua liderança era composta pelo Espírito Santo que capacitava os líderes locais a conduzir as respectivas comunidades a difundir com intrepidez o reino de Deus. Um bispo, diáconos e um número limitado de anciãos compunham a liderança local, sem subordinação ou dependência entre as igrejas e as comunidades cristãs. Portanto, as comunidades compartilhavam apenas uma unidade espiritual. Muitos cristãos consideravam desnecessárias as igrejas como instituições organizadas. Enfatizavam que somos todos “irmãos em Cristo” e não precisamos das estruturas orgânicas das igrejas. Depois da primeira metade do século II a ênfase começou a recair sobre a consolidação da igreja. Muitas heresias começaram a disseminar-se na igreja. Face ao relaxamento que começou a verificar-se, e ao processo espontâneo de auto consolidação, a igreja começou a hierarquizar-se.

Os bispos, que haviam sido responsáveis (administradores) da comunidade local, começaram a despontarem-se como sacerdotes monárquicos. Isto levou ao surgimento da estrutura hierárquica da igreja, isto é, um sistema em que o corpo sacerdotal é dividido em ordens, cada um subordinado a outro acima dele. Bispo, diáconos e anciãos começaram a serem vistos como ministérios subalternos (hierarquia) e a maioria dos crentes como simples leigos (povo). (História da Igreja, por Zakeu A. Zengo).

Este texto não trata da verdadeira Igreja de Cristo, organismo vivo, que está na terra; pois esta, necessariamente não tem lugar certo de adoração; pode estar em nosso quarto de dormir, com a porta fechada. Trata-se das organizações religiosas mesmo!

Muitas vezes saímos, dos términos dos “cultos domingueiros” com aquela velha impressão indecifrável: o que estamos fazendo aqui? O pior é que todo domingo precede uma segunda feira!
Talvez nosso erro seja querer o reino de Deus somente dentro dos templos feitos por mãos humanas e um pouco do “divino” na carne dos pregadores. Talvez queiramos somente o que é atraente: a mensagem da igreja (instituição religiosa) e de seus representantes, na ilusão de conseguirmos suportes financeiros e sucessos na vida social e familiar. (levar tudo o que possuímos e o que somos para o céu).

Na verdade não sei exatamente o que busco, mas com certeza sei com mais exatidão o que não busco.
Porventura procuro eu agora o favor dos homens, ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo. Gálatas 1:10.

2) Procuro uma “igreja cristã” que não tenha “donos fundadores”.

O que mais existe hoje são os “donos fundadores de igrejas”, que de igreja, nem nome têm mais, “ministérios”, “comunidades”, “movimentos”, e tantos outros nomes de fantasia mercadológica. São todas originariamente semelhantes: saem de outras igrejas em que os seus fundadores brigaram com os fundadores de lá, e para fazer jus ao brocardo: “dois bicudos não se beijam”, um, “seca” o outro e praticamente o expulsa. Para mostrar ao seu desafeto, o expulsado leva consigo seus “correligionários”, e mostrará ao expulsor, que é capaz de montar um “movimento” ainda maior, e assim nasce mais uma “igreja neopentecostal!”. A cada briga de “bicudos”, quase sempre surge uma nova igreja e a cada nova igreja; novas formas de se fazer “evangelicalismo”.

São igrejas economicamente bem sucedidas. Aliás, no Brasil existe algumas classes quase sempre diferenciadas, em termos de “prosperidade financeira”: políticos corruptos e seus bajuladores; empresários corruptores; banqueiros; donos de escolas particulares e donos fundadores de igrejas. É lucro certo!

As mega igrejas dispõem de serviços de propaganda muito poderosos. Gostam de lidar com pessoas melhores instruídas, mas crianças ingênuas na Palavra e sem discernimento espiritual; são os “velhos Nicodemos” que ainda não nasceram da água e do espírito, mas continuam sendo “bons religiosos”. Porém a maioria é de pobre em todos os sentidos, que querem se livrar da dificuldade financeira a todo custo e os “pastores, bispos e apóstolos” são as suas tábuas de salvação. Quem passa por dificuldade financeira é discriminado, incrédulo e infiel na lei dos dízimos; estes devem fazer as famosas “campanhas” e “correntes” da prosperidade. Todos têm de mostrar prosperidade, mesmo se não a tiverem, como numa grande companhia de teatro macabro.

A disciplina do “oficialato” é tão severa e hermética quanto num quartel do exército e a hierarquia, mais impenetrável que este. São os senhores do poder, os donos da verdade, os infalíveis e inacessíveis sacerdotes.

Não precisamos de “heróis religiosos” e “intermediários de Deus na terra”; isso só existe em cabecinhas de crianças e adolescentes na fé.

O “apóstolo moderno” anda num carro importado de luxo; viaja muitas vezes ao estrangeiro, disputando espaços no avião, com os grandes empresários. Comanda todos os negócios do setor de comunicação, compras de rádios, programas de televisão, imóveis e transações comerciais etc. Seus salários são estipulados por eles mesmos e representam muitas vezes mais de setenta salários mínimos e o pior é que sabem de muitos irmãos que estão a passar dificuldades para sustentá-los! Não é difícil entender Mateus 7: 21/23: Nem todo o que diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais iniqüidade.

Os espaços de reuniões (templos) devem ser bem grandes e luxuosos, para que caibam milhares de seletas pessoas muito bem confortáveis.

Têm o velho testamento, como os seus principais argumentos de que um cristão é obrigado a “ser e parecer” um bem sucedido homem ou mulher de negócios, e sempre investirá nisso, tendo a igreja e os “pastores” como os principais “suportes”; uma espécie de assessoria e consultoria econômico-financeira-religiosa.

Como não gosto de visitar “propriedades particulares”, a não ser de pouquíssimas pessoas; então não me sinto bem num lugar desse. Com toda a tranqüilidade, tenho certeza absoluta de que esta não é a “igreja virtuosa” que procuro; aliás, uma igreja que me ofereça somente as coisas deste mundo, é a “mais pobre de esperança” que poderia achar e seria o mais infeliz dos homens se me contentasse com o que eles oferecem. O ministério de Cristo na terra foi bem diferente deste glamour que vemos nessas grandes organizações; é só conferir!

Vocês dizem: somos ricos, estamos bem de vida e temos tudo o que precisamos. Mas não sabem que são miseráveis, infelizes; nus e cegos. Apocalipse 3:17. (igreja de Laudiceia).
Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos dizia, e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; o destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam com as cousas terrenas. Filipenses 3: 18/19.

3) Procuro uma “igreja cristã” que não tenha “manda-chuvas”.

O novo testamento nos ensina que liderar a igreja, não é o mesmo que liderar uma Empresa ou qualquer outra instituição secular. Nem, todos têm essa capacidade; isso não vem do homem. A igreja é um corpo comandado somente por uma cabeça, que é Cristo. E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja. Efésios 1:22.

Em nenhuma parte do novo testamento, identifiquei alguém que me fizesse entender que seria “o grande chefe ou líder” de alguma igreja. O homem mais indicado para isso seria o grande “plantador” de igrejas, o apóstolo Paulo; mas segundo as suas mensagens, isso fica muito distante de suas intenções.
Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculos ao mundo, tanto a anjos, como a homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis. Até à presente hora sofremos fome, e sede, e nudez, e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as próprias mãos. I Coríntios 4: 9/12.

Toda deliberação deve ter a “cara” de Jesus, o órgão pensante e decisório da igreja; caso contrário, alguém, percebendo isto, deve se manifestar contra qualquer intenção humana.
As instruções do apóstolo Paulo são bastante claras e percebemos bem o seu conceito do “ser apóstolo”: era um trabalho de pura doação, sacrifícios e voluntariado. Queria a todo custo, manter a Igreja num nível de satisfação muito acima do seu próprio; em linguagem popular, levava a Igreja às costas. Algo muito diferente do que vemos agora, com os chamados “apóstolos modernos”, que são “carregados” pelos bajuladores de plantão como heróis e salvadores da pátria.

Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. I Pedro 5: 1/3.

4) Procuro uma “igreja cristã” que não tenha uma pessoa somente na liderança.

E, promovendo-lhes em cada igreja a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido. Atos 14:23.

No novo testamento não há menção de que uma pessoa somente liderasse uma igreja. Como pôde isso se tornar uma regra geral, se não é bíblico? Sempre, quando se mencionava a liderança em determinado lugar, estava sempre no plural. E mesmo nos grupos de líderes, não há menção de um “líder dos líderes”. Baseado nisto, vejo que quanto maior (em número e qualidade) a liderança; melhores serão os trabalhos realizados, pois haverá mais e melhores conselhos e evitaremos “polarizações” ou disputas de preferências de líderes.
Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Atos 20:28.

Devemos ter cuidados para não ficarmos à mercê de uma pessoa, que aos poucos quer introduzir suas idiossincrasias e interesses pessoais, com manobras e manipulações na congregação, visando se “perpetuar no poder” e no seu cargo remunerado.
Meus irmãos, eu afirmo a vocês que o evangelho que eu vos anuncio não é uma invenção humana. Eu não recebi de ninguém, e ninguém o ensinou a mim, mas foi o próprio Jesus Cristo que o revelou a mim. Gálatas 1:11/12.

Este é o tempo em que existem muitos mestres “segundo os seus próprios desejos”. Contratam esses “mestres” para ouvir somente coisas agradáveis ou aquelas que querem ouvir. Não temos que ir à igreja para ouvir o que eles desejam para si; mas estamos somente atrás das “palavras de vida” vindas de Cristo.

Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. II Timóteo 4:3/5.
Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. Colossenses 2:8.


Não devemos esquecer as instruções de Paulo em I Timóteo 3:2: É necessário, pois, que o bispo seja... apto para ensinar. Não adianta muitos líderes, se estes não se empenharem numa instrução fidedigna da Palavra. Deve-se, na igreja, sempre incentivar e instituir o costume de estudar e pesquisar a Bíblia, não somente à liderança, mas principalmente aos incautos, para que estes não fiquem “se escorando” e dependendo em tudo da liderança e que possam caminhar com as suas próprias pernas. A responsabilidade das coisas espirituais é pessoal.
Não havendo sábios conselhos, o povo cai; mas na multidão de conselhos há segurança. Provérbios 11:14.

As pessoas precisam compartilhar a Palavra. Precisamos externar para alguém o que compreendemos e se o que entendemos, “bate” com o que os outros aprenderam. Quantos passam décadas numa igreja, ouvindo somente uma pessoa? Chega-se a um nível tal que no qüinquagésimo sermão de uma mesma passagem em que ele vai pregar, já se sabe das suas “palavras de efeito” e de todos os exemplos de seus amigos e de sua família até a quarta geração! Isso é perda de tempo!

Numa igreja onde há somente um líder, quantas vezes ele sobe ao púlpito por pura obrigação, ou profissionalismo quando é pago? Simplesmente porque somente ele é que prega!
Sendo o líder, um ser humano, logicamente haverá muitas ocasiões, em que não estará preparado para proferir nenhum sermão ou qualquer tipo de aconselhamento. Será ele quem precisará de uma palavra de ânimo, orientação, conselho, admoestação etc. Ninguém é infalível! Quantos exemplos escandalosos de líderes! Por quê? Porque estão sozinhos. Colocam-no num pedestal imaginário de infalibilidade em que não recebem nenhum conselho ou suporte psicológico; são pagos somente para ajudar os outros e quando erra, o povo cai matando em cima dele! Já vi muitos pastores caírem em suas tentações, justamente porque estavam num pseudo nível espiritual que não podiam suportar mais.
Instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria. Colossenses 3:16.

5) Procuro uma “igreja cristã” que não haja ninguém que tenha qualquer privilégio.

Segundo a grande analogia de Paulo em I Coríntios 12:12/27, sobre a diversidade dos dons espirituais, somos todos membros do corpo de Cristo. Não há um membro mais importante que o outro; todos têm as suas importâncias dentro deste corpo. É todos por um e um por todos; todos os membros trabalham e nenhum fica parado ou não há nenhum membro que trabalhe por todos ou mais que os outros. Em Cristo, temos de ser uma unidade perfeita ou então não somos corpo de Cristo!

Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários, e os que parecem ser menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos; revestimos de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso (...) I Coríntios 12:22/24.
Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo; quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. I Coríntios 12:13.


É comum ouvirmos dizer que em determinada igreja, quem viaja para participar de conferências, principalmente no exterior ou no litoral onde existem bonitas praias, são os da família da liderança. A melhor oportunidade de fazer um curso promovido pela igreja; adivinha que vai? O filho do pastor fundador. Se a igreja “precisa” de um jovem para se candidatar a um cargo político; quem vai? Os melhores horários de apresentação de cânticos no culto, quem domina? As famílias de melhor poder aquisitivo da igreja! Quem é mencionado mais vezes ao microfone pelo pastor? Serão aqueles que têm os menores “dízimos”?

Se em uma igreja existe alguém ou uma família, principalmente a liderança, que está obtendo qualquer vantagem, posso dizer sem medo de errar que este corpo não é o de Cristo; não quero participar dele, nem ser um membro seu!

6) Procuro uma “igreja Cristã” que “não pague” ninguém para pregar.

“Ninguém, em nenhum lugar da Acaia, tirará de mim este orgulho de anunciar o evangelho sem cobrar nada” (Paulo de Tarso).

Genericamente, o novo testamento nos diz que não é conveniente uma pessoa fazer do evangelho, uma “fonte de renda” para si e sua família. Isso, a meu ver, mudaria aquele conceito do corpo de Cristo, em que todos os órgãos são importantes em suas funções; não ficando as tarefas concentradas somente numa pessoa, que na obrigação profissional, desempenha as funções que deveriam ser feitas por todos. Terão os pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos e apóstolas modernos, mais galardões para apresentar naquele dia? Porque realmente trabalham muito! Todos nós, teremos de prestar contas individualmente perante Cristo. Será que alguém desses estará lá para nos defender?

Quando anunciei a vocês a boa notícia de Deus, fiz isso completamente de graça. Eu me humilhei para engrandecer vocês. Será que houve algum mal nisso? Enquanto estive trabalhando entre vocês, fui pago (recebi ajuda) por outras igrejas. Por assim dizer, eu estava roubando delas para ajudar vocês. E, durante o tempo em que estive com vocês, quando precisava de alguma coisa, não incomodava ninguém; pois os irmãos que vieram da Macedônia me trouxeram tudo o que eu precisava. O que aconteceu no passado e acontecerá no futuro é isto: eu nunca exigirei que vocês me ajudem. Pela verdade de Cristo, a qual está em mim, eu garanto que ninguém, em nenhum lugar da Acaia, tirará de mim este orgulho de anunciar o evangelho sem cobrar nada. II Coríntios 11:7/10. (nova tradução da linguagem de hoje)

Aparecem: regalias, mordomias, disputas internas e, claro, a busca sempre, por uma melhor (no sentido econômico) igreja; um maior salário; uma melhor cidade; uma melhor escola para os filhos; uma melhor faculdade para a esposa terminar o seu curso etc. A “teologia” dessas igrejas é uma série de “adaptações” feitas pelo líder, durante todo o tempo de seu contrato. Outra preocupação, é que esse “líder único”, sendo um empregado da igreja, estará sempre preocupado em “mostrar serviço” para os “homens” da congregação, distanciando-se cada vez mais de Deus em favor de seu ganha pão e qualidade de vida de sua família, o que em outros contextos seria muito normal. É o capitalismo exercido pelo clérigo, misturado à busca das necessidades espirituais da congregação. Depois de cada reeleição do líder (geralmente são reeleitos), existem os descontentes; aqueles que o queriam bem longe da igreja; agora terão de aturá-lo por mais um longo mandato. O evangelho do reino fica “laivado” pelo evangelho de atitudes sociais e profissionais; não tem nada a ver; é uma anomalia na igreja! A mensagem do evangelho torna-se apenas “boas receitas do bem viver”, com uma frivolidade espiritual total. Desculpem aqueles que, no sentido moderno, “vivem do evangelho”; vocês sabem do que estou falando.

O conceito de “salário”, para o apóstolo Paulo, estava voltado para o sustento; mantimento; e ajudas de envio de primeiras necessidades às pessoas que estavam fora de seu domicilio (viagens), o que eu acho muito justo. Nem sempre Paulo recebia doações e às vezes passava necessidades; isso indica que não havia um “contrato de trabalho” com aquelas igrejas. Afirmava sempre, que trabalhava duro para se sustentar e a seus colaboradores. Tinha uma profissão certa, como todos os homens devem ter.

E (Paulo) acabou ficando ali para trabalhar com eles, porque a profissão de Paulo e a deles era a mesma, isto é, fazer barracas. E todos os sábados ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os não-judeus. Atos 18:3/4.

Não digo que uma pessoa seja “proibida” de receber salários da igreja; se uma igreja quer e pode pagar, que pague, mas afirmo que é muito inconveniente e procuro uma que não tenha esses privilégios e anomalias; acho que temos esse direito, para o nosso bem espiritual.

Então, quem é que capaz de realizar um trabalho como esse? Nós não somos como muitas pessoas que entregam a mensagem de Deus como se estivessem fazendo um negócio qualquer. Pelo contrário, foi Deus quem nos enviou, e por isso anunciamos a sua mensagem com sinceridade na presença dele, como mensageiros de Cristo. II Coríntios 2:17. (nova tradução na linguagem de hoje).

7) Procuro uma “igreja Cristã” que não “engarrafe” a Palavra.

Cristo, em sua humanidade, era de diálogos abertos; sempre estava pronto para responder às perguntas de qualquer pessoa e quase todas as suas explanações eram originárias de perguntas que lhe faziam. Não há uma melhor maneira de saber o nível de aproveitamento do ouvinte, senão pelos seus questionamentos. Ficar calado, nem sempre significa consentir com tudo o que se ouve. Quantas igrejas existem, em que o questionar é algo tão assustador como pedir aumento de salário a um chefe bravo!

Ainda existe um pouco de medo da “fogueira da inquisição” da idade média! Por incrível que pareça, ser chamado de incrédulo, endemoninhado, possesso, carnal, excomungado etc são as grandes fobias dos crentes ainda hoje! E muitos daqueles que estão com o microfone e debaixo dos holofotes, gostam de humilhar alguns mais corajosos, quando estes fazem perguntas que vão de encontro aos seus interesses pessoais!

Semelhantemente à cultura do Islão, existe uma cultura do “não questionar” na igreja cristã. Segundo o escritor sociólogo, Moisés Espírito Santo em seu livro “Os Mouros Fatimidas”, página 107: “as divergências das minorias só poderão exprimir-se sob a forma de heresia. Toda a divergência política ou cultural assume a forma de heresia. Todos os sectários têm isto em comum: aderem ao princípio segundo o qual a religião não é mais do que a obediência a um chefe e em função disso encontram uma interpretação alegórica para toda a prescrição da lei religiosa”.

É comum observarmos em quase todas as igrejas, redutos de doutrinas, regras de fé, teologias e costumes fabricados lá dentro, para serem enclausurados em seus templos, à semelhança dos mosteiros. Forma-se verdadeiros mestres dessas “escolas particulares de interpretações”. A verdade do Evangelho se fragmenta em inúmeras verdades. A partir do momento em que se “invente” uma novidade doutrinal, todos se dispõem a defendê-la, como a partidos políticos e times de futebol. Cada qual se diz dono da sua verdade e aí daquele que se atreve a contestá-la!
Pelo qual estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada. II Timóteo 2:9.

8) Procuro uma “igreja cristã” que “Viva” somente no segundo sacerdócio.

O cristianismo nasceu com os judeus. Os primeiros cristãos eram judaizantes; uma casta de profundas influências, costumes e tradições que trouxe muitos atrasos à disseminação do evangelho após o pentecostes. Prova disso, é a grande luta do apóstolo Paulo com os gálatas, por volta do ano 55 AD: Recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? Gálatas 3:2.

A tradição judaica estava falando mais alto que a pregação da fé. O escritor aos Hebreus gasta todo o seu tempo para convencê-los de que a revelação cristã é superior à velha aliança; e isso se deu por volta do ano 68 AD.
“Ora, o primeiríssimo cristianismo se congrega em boa parte da fala aramaica e a Igreja primitiva permaneceu por muito tempo seriamente comprometida com a sociedade judaica.” (História da Igreja, por Zakeu A. Zengo).

O velho testamento é muito atraente! Todos os homens “abençoados” eram bastante ricos e respeitados. A punição era imediata para quem ousasse contra os “ungidos”. Não ser judeu naquela época, era o mesmo que ser índio em filmes americanos. Riquezas eram sinônimos de bênçãos, que eram mensuradas pelas cabeças de jumentos, ovelhas, bois, camelos, escravos, mulheres e concubinas. Tudo isso constitui aquilo que o homem sempre procurou: riquezas; egoísmo; orgulho; poder; influências; autoridade; reconhecimentos; suntuosidades e tudo que pertencente ao mundo e à carne.

No novo testamento não há nada disso; Cristo foi passiva e covardemente assassinado porque ameaçava “os esquemas” dos religiosos da época, pregando somente a vitória pelo amor e os desprendimentos desta vida terrena. Como prova de ab-rogação e mudança total da antiga lei, Ele dizia: Ouvistes que foi dito (na velha lei), eu porém vos digo.

Os apóstolos foram anti-heróis e viraram mártires. A maioria dos crentes eram pessoas pobres, humildes, cegos, coxos e leprosos. Mateus 11:3/5. Há coisa mais repulsiva que amar os nossos inimigos? E o ensinamento do “não acumular riquezas”, em regime capitalista?
Porque nada temos trazido para o mundo, nem cousa alguma podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. I Timóteo 6:7/8. Há atração em todos esses paradoxos do evangelho?

Procuro uma igreja que viva justa e somente no segundo sacerdócio (de Cristo). Que não faça do velho testamento um verdadeiro “canivete suíço” de utilidades para aplicação na igreja, de fatos e exemplos que muitas vezes são totalmente estranhos, e de parcos conteúdos históricos.

Procuro uma igreja que não tenha costume de “ir buscar” nenhuma lei do velho testamento ou costume proveniente dela, para aplicá-la como solução de algum problema para os indivíduos e para a igreja. Devemos saber que se tentarmos guardar um só ponto do livro da lei, involuntariamente declaramos que Cristo não morreu por nós e desta forma lançamos fora a obra de Cristo.

Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar (etc.), Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar (etc.), que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Gálatas 5:2/4. (guarda-se todas as leis ou não se guarda nenhuma).

A igreja deve ter consciência do tempo bíblico em que está vivendo e isso é tarefa de seus líderes. Se estes colocarem-na em um tempo que não é o dela; suas intenções serão meramente humanas. Não sejamos tão ingênuos!

É vontade de Deus Pai, que nos contentemos somente com o segundo sacerdócio de Seu filho.
Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. Hebreus 10:9/10.

9) Por que procuro uma igreja melhor?

Não saio fisicamente a procurar nenhuma igreja melhor; isso está em meu inconsciente há muito tempo. Não sou inimigo de nenhum líder religioso, nem briguei com nenhuma denominação. Todos estamos a procura de coisas melhores para nós; isso é algo salutar e necessário. Temos de progredir em todas as áreas de nossa vida. Na área espiritual, temos de nos mover também em direção progressiva, para frente e para o alvo que é Cristo.

Quanto mais examino Cristo e seu evangelho, mais me distancio destes conceitos modernos e ultra-retrógrados veterotestamentaristas de igreja cristã. Não sou melhor que ninguém e todos aqueles que se dispõem, a aprender mais e mais a Palavra, sem querer “terceiriza-la”, estão do meu lado, tenho certeza disso.

Quero ressaltar que existem algumas organizações próximas do ideal, porém ainda com algumas falhas do homem, que precisam ser concertadas. Espero que avancem ainda mais.

Conferir na bíblia, se o que estão dizendo é verdade; e não há nenhuma segunda intenção; é uma questão de sobriedade, prudência e inteligência.

Enquanto não compreendermos que a responsabilidade é individual e pessoal, não mudaremos o que estão fazendo com a Igreja de Cristo e os detentores dos poderes religiosos dançam de alegrias às custas dos incautos da Palavra. Isso é discernimento espiritual; então é coisa do Espírito. Busquemo-lo.

10) O movimento dos “sem igrejas” rumo à palavra original.

Há no Brasil, não sei se no mundo, o fenômeno dos “sem igrejas”. Não são pessoas incrédulas, desviadas ou em pecado. São pessoas inconformadas com os rumos tomados por suas igrejas; decidiram desligar-se ou foram praticamente excomungados de suas instituições, por discordarem das intenções humanas no corpo de Cristo. Como o homem é gregário por natureza, inevitavelmente este grupo está se juntando, não para fazer surgir mais uma igreja (igreja dos sem igreja, ou igreja sem placa), mas querem voltar ao Pentecostes e à pregação de Cristo e dos apóstolos. Espero que saibam como recomeçar tudo de novo. Diálogos fechados, centralizações egoísticas, sectarismos e tantos outros vícios comentados acima, devem ser evitados. A principal intenção é identificar os erros através da história da Igreja e voltar à Palavra original, sem que para isso haja os Esdras e os Neemias modernos. Espero que seja realmente uma verdadeira restauração e avivamento espiritual, talvez como preparação para a volta de Cristo e não o começo de mais um novo ciclo, em que a mão do homem vá prevalecendo progressivamente. Que Cristo cresça e o homem desapareça!

David de Oliveira – outubro de 2005.
http://www.estudos-biblicos.com/igreja-virt.html

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...