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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Italianidade na origem da CCB

A Italianidade na Gênese do Pentecostalismo Brasileiro

Gloecir Bianco


Resumo

Este artigo é uma síntese da monografia de mestrado em Ciências da Religião intitulada “UM VÉU SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO BRASIL”, onde o autor resgata alguns aspectos relevantes da imigração italiana para o Brasil.

Considera a permanência e adaptação dos imigrantes no estado de São Paulo, especificamente no bairro do Brás, mostrando faces de sua adaptação à realidade do país. Resgata a saga de Louis Francescon, um trabalhador simplório que ainda jovem, deixa sua terra natal no norte da Itália e parte em direção aos Estados Unidos da América. Após passar por uma profunda experiência pentecostal no início do século XX, Louis Francescon inicia uma fase de questionamento dos dogmas presbiterianos e inicia uma jornada solo que culmina com a viagem para a América Latina e Brasil, em busca de pregar o evangelho aos imigrantes italianos.

É no bairro do Brás em São Paulo, após uma passagem rápida pelo povoado de Santo Antonio da Platina, no norte pioneiro do estado do Paraná, que estabelece a Congregação Cristã no Brasil, a primeira denominação pentecostal brasileira. No início, conhecida e identificada por muitos como a “igrejinha dos italianos” e hoje, início do século XXI, perdeu por completo a memória italiana. Merece, contudo, destaque sua adaptabilidade à cultura brasileira.

Palavras chave: Italianidade, Etnia, Pentecostalismo

Gloecir Bianco: Graduado em Administração de Empresas, pós-graduado em Marketing, MBA em Gestão Avançada de Negócios, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


1. Introdução

Desde o final da década de 70, com o advento do chamado movimento neopentecostal no Brasil, o Pentecostalismo Clássico ou Tradicional vem lutando para continuar a crescer, tentando delimitar suas fronteiras[1]. Dentre essas denominações pentecostais, encontra-se a Congregação Cristã no Brasil, que é considerada por muitos como uma das mais tradicionais do Protestantismo Brasileiro[2]. Iniciada no ano de 1910, na cidade de Santo Antônio da Platina, norte pioneiro do estado do Paraná, ela pode ser considerada a primeira denominação pentecostal do País. Organizada pelo italiano Louis Francescon, um ‘missionário’ cuja experiência de fé deu-se na Igreja Presbiteriana de Chicago (Estados Unidos da América), a qual ajudou a fundar e que, anos mais tarde (e após passar por uma experiência carismática), constrangido pelo Espírito Santo, conforme declara em sua pequena autobiografia[3], seria, então, conduzido especialmente para evangelizar imigrantes italianos na América Latina. A Congregação Cristã é conhecida, no meio protestante, por conservar as mesmas características e as mesmas linhas doutrinárias estabelecidas na sua organização no ano de 1910, e preservadas até os dias atuais.[4] É difícil conceber que, em pleno século XXI, um grupo religioso preserve em suas celebrações a separação de homens de um lado do templo e mulheres de outro, onde o poder (liderança) é exercido exclusivamente por leigos do sexo masculino e onde os costumes e as doutrinas são transmitidos, fundamentalmente, pela tradição oral[5]. Mais inconcebível ainda é o fato de, em detrimento de toda a sua rigidez doutrinária, ser umas das denominações brasileiras com maior índice de crescimento.

Num primeiro momento o artigo apresenta uma breve análise da imigração italiana para o Brasil, resgata aspectos relevantes de sua adaptação ao novo país, a preferência por São Paulo e ao bairro do Brás. Considerando que italianidade era sinônimo de Catolicismo, o artigo apresenta uma realidade controversa. No dizer de Borges Pereira, uma “Face Esquecida pela história da Imigração”[6], pois foi exatamente no meio dos italianos que se deu a gênese do movimento pentecostal no Brasil. A saga de alguns de seus personagens mais importantes é também descrita de forma sucinta, assim como o estabelecimento definitivo como denominação no bairro do Brás, no meio dos italianos. Notório, portanto, sua origem étnica italiana a ponto de ser chamada “a igrejinha dos italianos”[7], contudo, a memória étnica se perdeu em algum ponto de sua trajetória. Neste início de século XXI não conserva mais qualquer traço ou costume italiano, segundo Borges Pereira: “A sensação de perda de identidade parece ser muito forte”[8].

2. A Imigração Italiana

Embora seja possível falar especificamente do fluxo migratório italiano para o Brasil, apenas a partir da segunda metade do século XIX, quando sentiu, de maneira precisa, a necessidade de mão-de-obra, o Brasil considerou conveniente abrir as portas também ao cidadão italiano, já que era declarada a preferência pelos grupos germânicos, conforme manifesta ostensivamente o texto do primeiro decreto Brasileiro sobre o assunto, assinado por D. João VI em 16 de março de 1820:

“Considerando a vontade de emigrar que os diferentes povos da Alemanha e de outros países manifestam pelo excesso de suas populações e considerando oportuno o estabelecimento de colônias estrangeiras no seu Reino do Brasil, (...)” (Hunsche, 1973 pg. 29).


Pode-se, contudo, afirmar que a vinda de italianos começou bem antes disso. É possível identificar cinco períodos definidos de “ocupação” italiana, iniciando com a aventura e o pioneirismo que vai do descobrimento até o início do século XIX. Em seguida o que seguiu ao problema do exílio político na primeira metade do século XIX, seguido da grande migração. Já no século XX, encontramos o período ligado às perseguições fascistas (motivos raciais). E, finalmente, o período após-guerra, quando, aproveitando a generosa hospitalidade do Brasil, muitos italianos, comprometidos com o antigo regime fascista, procuraram asilo por aqui. A presença italiana, portanto, vem desde os primeiros tempos do descobrimento. Cita-se, por exemplo, um certo Benedetto Morelli, seguido, um pouco mais tarde (por volta de 1530), dos irmãos Francesco, Giuseppe e Paolo Adorno, que monopolizaram o comércio do açúcar do Brasil à Europa, desde os primórdios do descobrimento, juntamente com os venezianos. Segundo alguns historiadores foram eles os primeiros a introduzir a cana de açúcar no Brasil[9].


3. Viagem programada

Nem sempre se faz menção que, durante algum tempo, a imigração italiana foi programada, principalmente, visando substituir a decrescente imigração de origem germânica. Em 1874, um cidadão de nome Felippo Capellini apresentou um projeto de colonização italiana planificada, com a finalidade de povoar o território entre as cidades de Rio Grande e Pelotas no estado do Rio Grande do Sul. Esse plano foi designado de “Nova Roma” e os trabalhadores italianos deviam ser, segundo Thales de Azevedo:

“escolhidos com cuidado nas diversas províncias da Itália Central, onde há maior moralidade e bons costumes na classe agrícola e onde a prática da agricultura é melhor adaptada a este lugar” (Azevedo apud Angeleri, 1975 pg. 35).

Ao analisar os grupos de imigrantes, seja pelos sobrenomes de famílias, seja por seu tipo de falar o italiano,[10] principalmente no interior do estado do Rio Grande do Sul, pode-se afirmar que a maioria dos imigrantes era proveniente da região norte oriental da Itália, ou seja, da região do Veneto, do Friulli[11], do Trentino e de algumas províncias orientais da Lombardia. A maioria dos italianos que se fixou no Paraná e Santa Catarina, também provinha das mesmas regiões. Algumas das indicações estatísticas disponíveis[12] mostram que, não apenas no início, mas também nas fases sucessivas, o fluxo migratório da Itália para o Brasil, substancialmente, provinha das províncias do Norte.

A imigração programada se estendeu de 1870 a 1930 e visava estimular a vinda de imigrantes: as passagens eram financiadas, bem como o alojamento e o trabalho inicial no campo ou na lavoura. Os principais destinos dos imigrantes nesse período denominado ‘imigração subvencionada’, foram as fazendas de café de São Paulo e os núcleos de colonização, principalmente os oficiais, localizados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo. Afora esses dois objetivos, uma terceira parte de imigrantes dirigiu-se para outras cidades, dentre elas, o Rio de Janeiro e São Paulo (capital). Adensadas por indivíduos que abandonavam o campo, re-emigravam de outros países ou mesmo burlavam a vigilância, não seguindo para o interior, estas cidades foram crescendo.


4. Preferência por São Paulo e pelo Brás

Hospedaria do imigrante
Em São Paulo, que chegou a ser identificada como uma “cidade italiana” no início do século XX, os italianos se ocuparam, principalmente, na indústria nascente e nas atividades de serviços urbanos. Chegaram a representar 90% dos 50.000 trabalhadores ocupados nas fábricas paulistas em 1901. No início, entretanto, o destino era mesmo as fazendas de café do interior paulista, que também incluía o que conhecemos hoje como interior paranaense. Logo que os italianos chegavam, o governo os recebia em alojamentos provisórios. Apenas em 1882 foi inaugurada uma hospedaria no bairro do Bom Retiro, no entanto, o local era pequeno e lá proliferavam diversas doenças. Foi necessário, então, começar a construir um novo local que pudesse atender à demanda crescente de estrangeiros. Em junho de 1887, começou a funcionar a Hospedaria do Imigrante, com capacidade para 1.200 pessoas, mas esse número muitas vezes foi ultrapassado, sendo registrada, em várias oportunidades, a presença de 6 mil pessoas alojadas. Nos 91 anos de atividades, estima-se que o local tenha acomodado aproximadamente três milhões de pessoas. Atualmente, o complexo abriga o Museu da Imigração.

Ao chegarem às fazendas de cafés, muitos imigrantes foram tratados semelhantemente aos escravos, chegando alguns a dormir nas senzalas. Isso porque a maioria dos fazendeiros, acostumados a tratar com escravos, demoraram algum tempo a se acostumar com o novo sistema de trabalho. A grande massa de italianos que se tornavam colonos ou empregados de uma fazenda de café trabalhavam em condições muito duras, tendo pequenas oportunidades de acumular algum capital. Eram proporcionalmente poucos os que realizavam o sonho da compra de uma pequena propriedade e, quando o faziam, não se tratava de propriedades de grande valor. As famílias de imigrantes que chegavam nas fazendas de café se submetiam a um contrato de trabalho segundo o qual todos, inclusive mulheres e crianças, deviam trabalhar. O contrato determinava, ainda, que cada família cuidaria de um número determinado de pés de café, recebendo para cada mil pés uma certa quantia em dinheiro[13]. Além disso, o contrato lhes dava direito a casa e quintal, podendo criar animais, fazer horta, plantar milho e feijão entre as fileiras do cafezal que estivessem a seu cuidado. Raramente, no entanto, podiam dispor de excedente dessa produção para comercializar.


Italianos fabrica paulista
As condições como operários das indústrias não foram muito diferentes. Era muito difícil ao imigrante melhorar de vida, quer financeira quer socialmente. Assim, é comum encontrar registros de italianos e estrangeiros, neste período, iniciando atividades por conta própria, realizando serviços e trabalhos tipicamente urbanos nas maiores cidades brasileiras. Muitos se especializaram como mascates, artesãos e pequenos comerciantes; motorneiros de bonde e motoristas de táxi; vendedores de frutas e verduras, tanto como ambulantes, como em mercados; garçons em restaurantes, bares e cafés; engraxates, vendedores de bilhetes de loteria e jornaleiros. Entre os imigrantes bem sucedidos que começaram “do nada”, o exemplo mais evidente em São Paulo é o do Conde de Matarazzo[14].

Se as condições de trabalho eram insalubres, também o eram as de moradia, já que, com freqüência, os imigrantes se instalavam em habitações coletivas - os cortiços - ou nas “favelas”, situadas nos morros. Por outro lado, em algumas cidades, podiam morar em determinados bairros étnicos – com destaque para o bairro do Brás e Bexiga em São Paulo - onde contavam com a cooperação e solidariedade dos vizinhos, o que em muito aliviava suas lides cotidianas. Nas três décadas seguintes (1855 a 1890), o bairro do Brás teve multiplicado seus mirrados 974 habitantes iniciais para um total de 16.807 no final. O aumento, aí alcançado, foi de 17,25 vezes ou, em termos relativos, de 1625%. Se diluirmos esse número ao longo dos anos que compõem o período aludido, chegamos à conclusão que sua população cresceu na média de 826 pessoas por ano, a imensa maioria dela, originária de fora. Podemos imaginar, a partir dessas cifras, o que esse incremento populacional representou para os moradores do Brás daquela época. E mais, o que essa avalancha humana de dimensões astronômicas recém-chegada teria causado nas já precárias condições de vida de seus habitantes. O bairro não possuía o mínimo de infra-estrutura urbana para abrigar, de forma decente, todo esse extraordinário contingente. A incorporação abrupta desses novos moradores fez, no início da última década do século, o Brás atingir o patamar dos 16.807 habitantes. Sozinho representava mais de um quarto (25,9%) da população paulistana.

Com a intensidade e o volume desse fluxo humano, a Hospedaria do Brás, como se pode imaginar, tornou-se um centro permanente de tensões entre seus hóspedes e de atenções por parte da classe dirigente da cidade. O local, por se constituir num imenso alojamento de força de trabalho, por atrair negociantes dispostos a todos os tipos de transações e por requerer, diariamente, uma quantidade expressiva de produtos de diversas ordens para abastecer seu consumo, tornou-se, ele mesmo, num entreposto gerador de uma infinidade de novas atividades urbanas. Os anos que se seguiram à abertura da Hospedaria, construída, a princípio, em terreno ermo, viram nascer à sua volta uma gama infindável de pequenos comércios e atividades ligadas à construção civil que iam desde a edificação até a implantação de infra-estrutura urbana para integrá-la ao conjunto do bairro e à cidade.


No início da última década do séc. XIX o Brás já contava com toda a infra-estrutura industrial necessária para um parque fabril, combinado com uma concentração de força de trabalho nitidamente proletária, abundante e acessível. Seus espaços foram sendo ocupados por residências de uns e fábricas de outros. Havia já se transformado, de um lado, num verdadeiro distrito industrial para os donos do capital e, de outro, num enorme bairro operário, para os trabalhadores[15].

Por sua vez, no interior paulista, com propriedades agrícolas cada vez mais prósperas, algumas famílias de imigrantes tentavam se fixar. Outras, seguindo o caminho de seus patrões, avançavam em direção ao Sul cruzando a divisa com o Paraná, em busca de terras férteis. Muito provavelmente, nestes movimentos é que se instalou no interior do Paraná, num pequeno povoado católico chamado Santo Antonio da Platina, algumas poucas famílias de italianos, dentre eles Vicenzo Pievani e Felício Mascaro[16], que se tornariam personagens chaves na gênese do Pentecostalismo Brasileiro, como relataremos a seguir.

5. Um Imigrante Pentecostal

No ano de 1907, o movimento pentecostal[17] atingiu os imigrantes italianos em Chicago nos Estados Unidos da América. Suas celebrações eram realizadas na língua italiana e esse foi o estopim de um movimento missionário sem precedentes, tanto para o interior dos Estados Unidos quanto para outros países do mundo. Louis Francescon, um simplório trabalhador católico proveniente do norte da Itália, que havia se convertido ao protestantismo pela pregação e pelo modelo de vida de Michele Nardi[18], que havia participado da fundação da Primeira Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago e, que por muitos anos dela participara como tesoureiro, seria fulminado por uma experiência carismática. E, agora “movido pelo Espírito Santo”, seria enviado à América Latina para anunciar as “boas novas” aos imigrantes italianos. Louis Francescon, viajando em companhia de Lúcia Menna e Giacomo Lombardi, atingiram, inicialmente, a Argentina (Buenos Aires) e, posteriormente, o Brasil (São Paulo). A partir desse ponto, começa a história conhecida da Congregação Cristã no Brasil. Francescon fica conhecendo um italiano, residente no interior do estado do Paraná[19] chamado Vicenzo Pievani, a quem expõe sua fé, ali mesmo na Estação da Luz, em São Paulo. Em poucos dias, no entanto, Vicenzo retorna para seu povoado.


Francescon, sempre atribuindo seus movimentos ao Espírito Santo, é movido, então, a viajar a Santo Antônio da Platina, um Patrimônio[20] distante aproximadamente 600 quilômetros de São Paulo. Sem ter qualquer endereço, sem falar uma palavra de português, sem dinheiro e sofrendo dores, provavelmente, uma crise de rins, embarcou em um trem da, então, estrada de ferro Sorocabana que partia às 5:30 da manhã, chegando à estação de Salto Grande às 11:00 horas da noite. Desse ponto, ainda distante aproximadamente 70 quilômetros, percorreu no lombo de um cavalo, guiado por um indígena da região. De acordo com a narrativa do próprio Francescon:

Parti de São Paulo às 5:30 horas com uma terrível dor lombar que me impediu tomar alimento durante todo aquele dia. Cheguei a Salto Grande às 23 horas e nesse lugar o Senhor me disse ter preparado tudo para mim, a fim de cumprir minha missão; e assim aconteceu, porém, faltavam fazer cerca de 70 quilômetros a cavalo, atravessando matas virgens infestadas de jaguaras e outras feras existentes no lugar. Pela Graça de Deus, fiz este resto de viagem com um guia indígena, chegando a Santo Antônio da Platina em 20 de abril” (Histórico da Obra de Deus revelada pelo Espírito Santo no Século Passado, 2002 pg. 45).

A semente havia começado a germinar, Vicenzo já ouvira sem rejeição a pregação do Evangelho em São Paulo, por ocasião do primeiro encontro. Agora, juntamente a esposa brasileira, abria as portas de sua casa para reunir e iniciar, o que testemunhas do local chamam de “a primeira irmandade” da Congregação Cristã no Brasil. Felício A. Mascaro também italiano, casado com uma brasileira, mais alguns amigos, no total de 11 pessoas, ouviram atentamente e durante, aproximadamente 45 dias[21], a ministração daquele italiano, pessoa humilde, porém com grande autoridade e conhecimento na mensagem que pregava.

Foram batizados na água 11 pessoas e confirmados com sinais do Altíssimo. Estas foram as primícias da grande obra de Deus naquele país” (Histórico da Obra de Deus revelada pelo Espírito Santo no Século Passado, 2002 pg. 46).

Os parentes e amigos daquelas pessoas, rapidamente perceberam a “influência perigosa” daquele estranho, o vigário da região tomou conhecimento e partiu em “defesa de suas ovelhas”. Louis agora estava em apuros, apesar de ter conseguido cumprir o que o Espírito lhe havia recomendado, agora ameaçado, precisando se esconder ou fugir daquele lugar, pois como ele próprio descreve:

Logo após, o inimigo começou a trabalhar para destruir esta obra, mas foi em vão. O restante da população deste lugar, sabendo da minha vinda e de minha missão, tinha jurado matar-me. Eles tinham por chefe um padre de uma certa denominação. Isso teria acontecido se Deus não tivesse intervindo com Seus meios. O Senhor fez-me permanecer lá até 20 de junho. Eu estava pronto a entregar-me aos inimigos para poupar a vida de alguns crentes que o Senhor havia chamado. Deus é testemunha, assim como também os irmãos que habitam lá” (Histórico da Obra de Deus revelada pelo Espírito Santo no Século Passado, 2002 pg. 46).

O retorno de Louis Francescon a São Paulo se deu (provavelmente) no dia 21 de junho de 1910, um dia após sua partida de Santo Antônio da Platina. A partir dos episódios vividos no interior do Paraná, nos parece que Francescon recebeu uma verdadeira injeção de ânimo. É assim que ele narra esses acontecimentos:

Parti de Santo Antonio da Platina em 20 de junho, com destino a São Paulo. Apenas chegando àquela Capital, o Senhor permitiu abrir uma porta, resultando que cerca de 20 almas aceitaram a fé e quase todas provaram a Divina virtude. Uma parte eram Presbiterianos e alguns Batistas e Metodistas e alguns também Católicos Romanos. Alguns foram curados e outros selados com o Bendito Dom do Espírito Santo” (Histórico da Obra de Deus revelada pelo Espírito Santo no Século Passado, 2002 pg. 46).

Essa porta que “o Senhor permitiu abrir”, oficialmente, é o início da Congregação Cristã no meio de um bairro de imigrantes italianos, em São Paulo. Yuasa, ao escrever sobre esse início, faz a seguinte descrição:

Returning to São Paulo he went to the Presbyterian Church on the Alfândega Street, in the section of the city called Braz, where some of its members were Italian. Francescon says that some were Methodists, some were Roman Catholics and some were Presbyterians. Out of a Congregation of 70 people, 20 were converted and left that church” (Yuasa, 2001 pg. 190).

O depoimento a Yuasa foi feito por João Finotti[22] no ano de 1960, então, o mais antigo dos Anciãos ainda em vida. Com esse contingente de 20 “novos convertidos” da Igreja Presbiteriana da Rua da Alfândega, iniciou-se em São Paulo a Congregação Cristã no Brasil sob o comando de Louis Francescon, que ali permaneceu até setembro de 1910, partindo, então, para o Panamá. O fruto de seu trabalho no meio dos italianos de São Paulo começou a prosperar, segundo depoimentos de João Finotti, já no ano de 1911 havia três Anciãos e o trabalho começou a expandir, primeiro em Água Branca e outro na Vila Prudente. No ano de 1914, um novo grupo foi formado em São João da Boa Vista e, no ano de 1916, a primeira propriedade foi comprada na Rua Uruguaiana no Braz. A partir desses acontecimentos a Congregação não parou mais de se expandir, primeiro para o Rio de Janeiro, depois para Minas Gerais e para a Bahia.

6. Uma Igreja de e para Italianos


CCB bairro do Brás - 1950
Mendonça, em seu importante trabalho Evolução Histórica e Configuração Atual do Protestantismo no Brasil, traz a seguinte declaração sobre a questão da italianidade da Congregação Cristã:

Inicialmente Igreja de imigrantes italianos e crescendo pouco nas primeiras décadas,“explodiu” na década de 1950, quando os nordestinos passaram a ocupar lugar dos italianos no Brás. Ainda se vêem muitos nomes italianos em sua liderança, mas a grande massa já não é mais de italianos e seus descendentes” (Mendonça, 2002 pg. 49)

O conteúdo do trabalho de Mendonça, bem como todos os estudos realizados até ele, desde Léonard até o mais recente artigo de Borges Pereira[23], passando por Rolim e, evidentemente, pela monumental biografia de Louis Francescon, escrita por Yuasa, comprovam a tese. A Congregação Cristã foi por muitos anos, uma igreja formada basicamente por imigrantes italianos. Chegou mesmo a ser chamada de “igrejinha dos italianos”[24], apesar de ser considerada uma igreja brasileira. Contudo, durante esse período atribuído aos italianos, o crescimento da Igreja foi considerado muito pequeno, bastante discreto. Rolim traz uma fotografia bastante interessante não só confirmando a questão da italianidade da Congregação, como também desenha o cenário do bairro do Brás em São Paulo, onde a grande massa de italianos vivia e onde a Congregação Cristã se enraizou:

o enraizamento da Congregação Cristã no Brasil foi, sem dúvida tarefa de italianos e seus descendentes. Sua expansão, porém, foi obra de brasileiros conversos (...) Desde o começo do século, o Brás foi se tornando um bairro tipicamente italiano. Gente falando só italiano, comércio e fábricas com pessoal italiano; escolas, igrejas católicas e protestantes, com suas aulas, cultos e pregações em italiano. (...) Ora, foi precisamente a esse bairro densamente ocupado por italianos que, em 1909, chegava o pentecostal Francescon, procedente dos Estados Unidos, trazendo nada menos que um projeto, o de comunicar sua experiência religiosa aos compatriotas que vieram para o Brasil ” (Rolim, 1985 pg. 39).

Para Borges Pereira, grande estudioso dos movimentos religiosos étnicos, a questão da italianidade é realmente indiscutível.

Francescon, sempre guiado, segundo ele, pela vontade de Deus, volta a São Paulo, mais precisamente para o bairro do Brás, predominantemente habitado pelos imigrantes italianos. Nesse bairro, com o apoio de seus patrícios, operários e industriais, consolida a sua igreja, que hoje se espalha por todo o território nacional”[25].

Esses depoimentos, resultados de um grande período de pesquisas e investigações, não deixam dúvidas de que a Congregação Cristã surgiu e se enraizou entre os italianos estabelecidos em solo brasileiro. A nacionalidade italiana de seu fundador, Louis Francescon, facilitou em muito o convencimento desse povo, reconhecidamente católico. Até meados do século XX, a cultura italiana ainda impregnava grande parte das Congregações, principalmente as da cidade de São Paulo. Os livros de hinos ainda eram bilíngües e, em muitas oportunidades, eram entoados em italiano. Alguns integrantes mais antigos na comunidade do Brás e de Bom Retiro comentam que as pregações, em muitas ocasiões, também eram realizadas em italiano.

Desde o início e com o correr dos primeiros anos, a Congregação teve no imigrante italiano e seus descendentes o seu suporte social. Assim ela criou raízes. Prova disso é o livro de cânticos. As três primeiras edições saíram todas em italiano. A primeira logo no começo. A segunda em 1924. A terceira, de 1935, era parte em italiano e parte em português. Só em 1943 é que apareceu a quarta edição toda em vernáculo” (Rolim, 1985 pg. 39).

Ao percorrer as Congregações Cristãs, no entanto, assistir a seus cultos e conversar com a ‘irmandade’, fica absolutamente claro que esta italianidade se perdeu no tempo. Como bem disse Borges Pereira em seu trabalho sobre os italianos no interior de São Paulo:

A sensação de perda de identidade parece ser muito forte entre os descendentes de imigrantes. É como se o passado estivesse desmoronando, ainda que a confiança no presente e no futuro da comunidade seja o tema recorrente no discurso dessas pessoas”[26].

7. Conclusão

A Congregação Cristã talvez seja a denominação protestante que melhor tenha se adaptado ao Brasil, principalmente, durante seu processo de introdução. Primeiramente se adaptou à comunidade italiana que, conforme procuramos demonstrar, teve no bairro do Brás em São Paulo, seu berço mais importante. Muitos autores atribuem a esse fato o enraizamento da denominação na sociedade paulistana do início do século. Foi também, segundo esses autores que, através da prática proselitista[27], a Congregação Cristã conseguiu se multiplicar:

O imigrante italiano e descendentes, uma vez pentecostais, tornaram-se proselitista, mesmo sem pregação em praças públicas, pois a Congregação não a pratica. A conquista de novos adeptos ia se fazendo entre os italianos, o que não deve ter sido nada fácil, uma vez que em São Paulo eram os mais ardorosamente empenhados nas lutas operárias. O meio social dos novos adeptos era geralmente o pequeno comércio". (Rolim, 1985 pg. 39).

Em segundo lugar, como entende Mendonça, a adaptabilidade e a ‘explosão’ da Congregação, a partir da década de 1950, deveu-se em grande parte, ao nordestino que passou a ocupar o lugar dos italianos, notadamente no bairro do Brás em São Paulo. É sabido que as décadas de 1940 a 1980 marcaram o agigantamento da cidade de São Paulo. Brasileiros vindos de todas as regiões e principalmente dos estados do nordeste[28], fugitivos de grande período de seca, invadiam a cidade a procura de trabalho e melhores condições de vida. A grande maioria desses brasileiros era formada por pessoas simples, analfabetos ou semi-analfabetos e sem profissão definida que vinham engajar-se em trabalhos pesados, como a construção civil, aprendizes de marceneiros, empregados domésticos, carpinteiros, operários na indústria nascente etc. Sem dúvida, a explosão dessa classe populacional na cidade contribuiu para a expansão pentecostal e, certamente, contribuiu para o crescimento da Congregação Cristã.

Assim, a Congregação parece ter dado oportunidades, oferecido alternativas, primeiro, entre os imigrantes italianos que lutavam bravamente para conquistar um espaço, numa terra que não lhes pertencia e, posteriormente, para a população de nordestinos que escolheram São Paulo para fugir da seca e da fome. Ainda hoje parece ser a denominação pentecostal que mais se aproxima da população simples, notadamente nas pequenas cidades. Não faz diferenciação entre o clero e seus membros leigos, possui grande quantidade de templos desde as capitais até lugarejos humildes. Nela pessoas sofridas, sem recursos culturais ou financeiros, muitos sem profissões definidas, encontraram o canal de ascensão e aceitação social. Contudo, sua origem a partir da etnia italiana, foi esquecida, não faz mais a menor diferença dentro de uma estrutura em que valores, costumes, história e até doutrinas, foram transmitidos, alguns preservados e outros perdidos, como é natural a toda transmissão feita a partir do discurso oral.

8. Referências Bibliográficas


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BORGES PEREIRA, João Baptista. Italianos no mundo rural paulista. São Paulo: EDUSP, 2002.

BORGES PEREIRA, João Baptista. Italianos no protestantismo brasileiro: A face esquecida pela história da imigração. São Paulo: 2004, Revista da USP nº 63 Set – Nov 2004.

BORGES PEREIRA, João Baptista. Perfis de italianidade no Brasil. In: (org.)

CAMARGO, Cândido P. F. de. Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973.

DE BONI, Luis Alberto. Far la Mérica. Porto Alegre: RioCell, 1991.

DREHER, Martin N. Igreja e germanidade. São Leopoldo: Sinodal, 2003.

HUNSCHE, Carlos Henrique.: Imigração Alemã no Brasil in História da Imigração. São Paulo: Serviço de Divulgação Cultural Brasileiro, 3ª edição.

LÉONARD, Émile G. O Iluminismo num protestantismo de constituição recente. Copyright: Universitaires de France, Paris, 1952. (Tradução de Prócoro V. Filho e Loide B. Velasques).

MENDONÇA, Antonio G. e Velasques Filho, Prócoro. Introdução ao protestantismo brasileiro. São Paulo: Loyola, 1990.

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. O Celeste Porvir. São Paulo: Aste, 1995.

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. Protestantismo Brasileiro uma breve interpretação histórica – Sociologia da religião e mudança social – São Paulo: Paulus, 2004.

REILY, Duncan A. História Documental do Protestantismo no Brasil. São Paulo: Aste, 1998.

RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico. São Paulo: Pioneira, 1991

SEVERINO, José Roberto. Noi Oriundi: Cultura, Identidade e Representações da Imigração Italiana em Santa Catarina. Tese de Doutorado em História Social na USP, 2004.

YUASA, Key. Louis Francescon: A Theological Biography 1866 – 1964. Genebra, 2001


Documentos

Ø Resumo da Convenção realizada em Fevereiro de 1936; Reuniões e Ensinamentos realizadas em Março de 1948; Pontos de Doutrina e da Fé que uma vez foi dada aos Santos; Histórico da Obra de Deus, Revelada pelo Espírito Santo no Século Passado; Mensagens. São Paulo, Augusto, 2002.

Ø Congregação Cristã no Brasil, RELATÓRIO, Edição 1997, 1998, nº 61. São Paulo, Geográfica.

[1] Antonio Gouvêa de Mendonça em: Protestantismo Brasileiro uma breve interpretação histórica (artigo publicado no livro: Sociologia da Religião e Mudança Social), faz a seguinte referência sobre a classificação protestante no Brasil: “A distinção deve ter como princípio geral a doutrina do Espírito Santo como referida no Pentecostes. Para as igrejas cristãs tradicionais em geral, o Pentecostes foi o evento fundante da Igreja Cristã, segundo a promessa de Cristo no Evangelho (João 14: 16-18). Pela presença constante do Espírito na Igreja, o Pentecostes não se repete. Para os pentecostais clássicos, o Pentecostes se repete como experiência renovada e, particularmente, fenomênica do Espírito. Por isso, as igrejas pentecostais, segundo sua forma de crença fundamental, distinguem-se essencialmente das tradicionais da Reforma. Além dessa ruptura básica, os pentecostais, bem como os neopentecostais, distinguem-se dos protestantes tradicionais pela forma de transmissão religiosa, que nesses se dá por uma pedagogia racional e naqueles pela emoção (Rivera, 2001 p. 256)”.

[2] Ainda, segundo Mendonça no mesmo artigo citado acima: “A Congregação Cristã no Brasil, em geral, inserida no grupo de pentecostais clássicos, tem características que dificultam sua classificação...”.

[3] Autobiografia de Louis Francescon, contida num pequeno folheto de aproximadamente 50 páginas com o título: “Resumo de uma ramificação da obra de Deus pelo Espírito Santo no século atual”.

[4] Também, segundo Mendonça, em Protestantismo Brasileiro uma breve interpretação histórica, a Congregação Cristã no Brasil “tem origem pentecostal e assim deve ser considerada, mas é significativo seu distanciamento da glossolalia por causa da disciplina rigorosa exercida por sua liderança”.

[5] Sobre isto o autor mencionado faz a seguinte citação: “A ordem é garantida a todo preço, assim como uma unidade admirável para um grupo religioso que se mantém exclusivamente pela comunicação oral”.

[6] Ver nota 22 página 15.

[7] Ver nota 23 página 16.

[8] Ver nota 26 página 18.

[9] Essa informação é encontrada na obra de Paolo Angeleri “Imigração Italiana no Brasil” que faz parte do compêndio: “História da Imigração”. Há, no entanto, muita controvérsia com relação a esta informação, para o historiador Prof. A. Souto Maior, a introdução da cana de açúcar no Brasil teria acontecido já antes de 1516, quando se encontra um registro em que D. Manuel assinara um alvará mandando distribuir “machados e enxadas e todas as ferramentas às pessoas que fossem a povoar o Brasil e que procurassem e elegessem um homem prático e capaz de ir ao Brasil dar começo a um engenho de açúcar; que se lhe desse uma ajuda e também todo o cobre e ferro necessário e mais coisas para o fabrico do dito engenho” (Souto Maior, 1968 pg. 87).

[10] Segundo registra Luis A. de Boni em sua obra: Far la Mérica, sobre a presença Italiana no Rio Grande do Sul, a convivência entre imigrantes de várias proveniências numa situação de isolamento, com escolas fundadas por eles próprios, onde se lecionava em italiano, com pregações religiosas em italiano, com autoridades que procuravam compreendê-los e, até mesmo, expressar-se na língua deles; tudo isto levou a um processo de fusão entre os diversos dialetos, criando-se uma língua comum à qual acrescentaram-se palavras de proveniência portuguesa. Trata-se de um novo dialeto, semelhante, mas não idêntico aos dialetos vênetos, e que seguiu uma evolução própria à medida que se estancou a vinda de novos imigrantes e a comunicação com a Itália. (De Boni, 1991 pg. 138).

[11] Proveniente dessa região, o fundador da Congregação Cristã no Brasil. Louis Francescon é originário de Cavaso Nuovo, província de Udine, norte da Itália.

[12] Segundo Thales de Azevedo (in Angeleri), dados colhidos em 26 municípios demonstram que os avós e bisavós provinham do Veneto (54%), do Trentino (7%), do Friuli (4,5%), da Lombardia (33%).

[13] A respeito da condição dos imigrantes e seus ganhos, a Profª Zuleika M. F. Alvim, em seu livro Brava Gente, faz a seguinte referência à pesquisa em duas cadernetas, realizada por Gina Lombroso: “uma das famílias, composta por um viúvo com três filhas meninas, teve como receita o total de 635$724 réis por um ano de trabalho. Nesse caso, exatamente porque a família contava com apenas um elemento na lavoura, toda a receita veio daí (80%) e de seu trabalho extra como diarista (20% aproximadamente). Só 3,1% vinha de gêneros de subsistência. Ao lado disso, estavam as despesas com carnes, verduras, leite e outros produtos. Em contrapartida, a caderneta de uma família composta de três trabalhadores – uma mulher e dois homens – não tinham despesas com esses gêneros e chegava a apresentar um saldo positivo na receita”.

[14] Em 1881, já casado e com dois filhos, decide-se mudar com a família para o Brasil. Traz algum dinheiro e uma partida de queijos e vinhos, que se perde quando o barco afunda no porto. Ele nunca revelou quantas liras trouxe, apenas dizia que era "um milhar". Com o dinheiro que veio no bolso, inicia seus negócios, abrindo uma casa comercial em Sorocaba, na época um dos principais pólos comerciais do estado. Matarazzo percebe a demanda por banha e decide investir na compra de porcos, mesmo não tendo terras para criá-los. Deixava os animais com fazendeiros antes de vendê-los aos fabricantes de banha. Logo seu patrimônio cresceu e ele decidiu montar sua própria fábrica. Em 1890, traz da Itália seus irmãos Giuseppe e Luigi, com os quais cria a empresa Irmãos Matarazzo, com filiais em São Paulo e em Porto Alegre. Em 1934, o Conde Matarazzo tinha um dos 500 maiores grupos empresariais do mundo: um império de 365 indústrias que fabricavam da banha até pregos, passando por papel e açúcar. As indústrias Reunidas F. Matarazzo empregavam 30 mil funcionários e alcançavam faturamento bruto mensal de 350 mil contos de réis, enquanto a receita do estado era de 400 mil contos de réis. O Conde Francisco Matarazzo morreu em 1937, deixando o império para seus 12 filhos vivos, dos 13 que teve. O comando das indústrias ficou com o quinto filho homem, Francisco Matarazzo II, conhecido como Conde Júnior ou Chiquinho. O grupo não resistiu ao pós-guerra, às crises do mercado brasileiro e aos problemas de sucessão e, ao longo dos anos, boa parte do patrimônio da família foi vendido.

[15] Eis, no entender de Lourenço Diaféria, um fato relevante para entender que a urbanização do Brás não foi apenas de forma elitista: “As raízes do futebol brasileiro estão no Brás. Charles William Miller, 20 anos, paulistano apesar do nome, nascido na casa dos avós e dos pais, todos ingleses, numa chácara da Rua Monsenhor Andrade, no Brás” (...).

[16] Vicenzo Pievani era um italiano originário da Província Macerata na Itália. Residente no Patrimônio de Santo Antônio da Platina, encontrou-se com Louis Francescon na Estação da Luz em São Paulo. Na casa (ou melhor, no hotel) de Vicenzo Pievani, em Santo Antônio da Platina, inicia-se a pregação de Louis Francescon no Brasil. Felício A. Mascaro um italiano, também residente no povoado, em cuja casa Louis Francescon permaneceu por muitos dias, quando de sua estada em Santo Antônio da Platina.

[17] O movimento pentecostal tem a sua origem nos Estados Unidos, no final do século XIX e início do século XX. Surgiu dentro do Metodismo como um movimento de renovação, dito "Holiness" (Santidade). Esse movimento ensinava que, depois da conversão (necessária para a salvação), o cristão deveria passar por uma "segunda benção" ou uma nova e mais profunda experiência religiosa, que era chamada de "batismo no Espírito Santo". Em 1900, um grupo de metodistas que tinham aderido ao "Holiness", após interpretarem passagens da Bíblia (At 2,1-12; 10, 44-48; 19, 17), chegaram a conclusão que o sinal característico do “batismo no Espírito Santo” é o dom das línguas (glossolalia). Posteriormente, buscaram os outros dons do Espírito Santo, entre os quais, a cura de doenças pela imposição das mãos.

[18] Michele Nardi era outro italiano, considerado um dos pioneiros da pregação do Evangelho entre imigrantes italianos na América. Nascido em Savignano Sul Rubicone, província de Forli próximo a Florença em 2 de novembro de 1850, seu trabalho era estabelecer igrejas entre os imigrantes nos Estados Unidos. “Mr. Nardi presented the Gospel with such simplicity and power that the people were surprised and attracted and held, for he knew his Bible and spoke authority. He preached faithfully the second coming of Christ, and exhorted them to watch and pray as his coming would be soon. He also preached the Baptism of the Holy Spirit and the whole counsel of God”. (Simpson apud Yuasa 2001 pg. 56).

[19] Santo Antônio da Platina localiza-se no, hoje, denominado Norte Pioneiro do estado do Paraná, muito próximo à divisa com o Estado de São Paulo.

[20] Nesta época, Santo Antônio da Platina ainda era um Patrimônio, somente sendo promovido a cidade no ano de 1914.

[21] Segundo depoimento de João Alves Barreto, genro de Felício Mascaro, morador de Santo Antônio da Platina, a cerimônia de batismo somente ocorreu no dia 05 de junho de 1910, num córrego que cortava o povoado, hoje, denominado Ribeirão do Boi Pintado. Considerando que, pelo depoimento de Francescon, sua chegada ao povoado se deu no dia 20 de abril de 1910, passaram-se 45 dias até a referida cerimônia.

[22] João Finotti, em 1910, então, com 16 anos, era membro da igreja Presbiteriana na Rua da Alfândega, no Braz, quando Louis Francescon os visitou. A partir de testemunhos e pregações, Francescon “conquistou” 20 dos 70 membros da igreja, dentre os 20 estavam João Finotti (que, segundo seu próprio testemunho, apesar de freqüentar a igreja não havia ainda abandonado os hábitos do mundo) e sua mãe. Agora, por ocasião desse depoimento, o Ancião João Finotti era considerado o Presiding Ancião, esse papel cabe ao mais antigo dos Anciãos, que exerce a função de moderador entre eles.

[23] Borges Pereira em seu artigo: Italianos no Protestantismo Brasileiro: A Face Esquecida Pela História da Imigração para a Revista da USP nº 63 Set – Nov 2004.

[24] Nota de rodapé do livro de Leonard: “Eis as indicações do caráter étnico dadas pela enquete para as comunidades de S. Paulo. No bairro de Cerqueira César os vizinhos falam “Igrejinha dos italianos”. A entrevistadora assinala em 1948: 50% estrangeiros ou filhos de estrangeiros, italianos, espanhóis, portugueses,... mulatos e alguns negros”

[25] Artigo do Professor João Baptista Borges Pereira: “Italianos no Protestantismo Brasileiro: A face esquecida pela história da imigração”. Revista da USP nº 63 Set – Nov 2004.

[26] Italianos no Mundo Rural Paulista, pesquisa de um núcleo de imigrantes italianos realizada pelo Professor João Baptista Borges Pereira, abrangendo o período após a Segunda Guerra Mundial, especificamente, sobre grupos de colonos estabelecidos em Pedrinhas, SP.

[27] Voltamos a ressaltar que, a exemplo do que nota Rolim, proselitismo: “não tem aqui sentido pejorativo. É tomado na acepção etimológica de fazer discípulos, adeptos, seja que se trate dos que diziam não ter religião alguma, seja que se considerem os que passaram do catolicismo, ou de outra religião, para o protestantismo”. (Rolim, 1985). Especificamente, neste caso, aqueles que, advindos de qualquer outra denominação, passaram a pertencer à Congregação Cristã no Brasil.

[28] A migração nordestina para São Paulo faz parte de um contexto de desenvolvimento econômico e social adotado historicamente. No período do pós-guerra, a proposta de industrialização-desenvolvimentista maciça do País impulsionou a saída de migrantes de várias partes do Brasil que se dirigiram para o Rio de Janeiro e São Paulo - à medida que os dois estados estabeleceram-se como linha de frente no processo industrial brasileiro. (O censo de 1970 registrou que cerca de 1,5 milhão de nordestinos viviam em São Paulo durante a década de 60.). (...) No caso da migração nordestina para o Estado de São Paulo, é interessante notar também como ela caminhou ao longo da década de 60, 70 e 80. O Censo Demográfico de 1970 que mede o que aconteceu na década anterior, registrou que havia 1.459.627 pessoas nascidas no nordeste vivendo no Estado de São Paulo. O Censo de 1980 contou 1.163.324 e, segundo as preliminares do Censo de 91, como citado anteriormente, os migrantes nordestinos eram



OBS.: TODAS AS IMAGENS DESTE ARTIGO NÃO CONSTAM NO ARTIGO ORIGINAL MAS FORAM INSERIDAS PELO AUTOR DO BLOG COMUMCCB

2 comentários:

Otavio Demasi - Mtb 32.548 disse...

Nascido no Brás em novembro de 47, de familia italiana- DEMASI, li com muito carinho o brilhante trabalho de resgate de uma das muitas histórias dos antepassados que imigraram para o Brasil e que aqui semearam através do trabalho e adaptabilidade a maior colônia de descendentes italianos fora da Itália.
É sempre reconfortante ter o bairro do Brás na memória.
Otavio Demasi - consultor de turismo/jornalista Mtb 32548
www.otaviodemasi.com

Anônimo disse...

Antes de dizer que uma igreja é petencostal, procure saber dela própria se realmente ela é.

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