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sábado, 28 de agosto de 2010

Escola Dominical

Robert Raikes
1. Escola Dominical

Todas as igrejas evangélicas brasileiras desenvolvem aos domingos uma atividade chamada Escola Dominical, de manhã ou à tarde, num período de cerca de duas horas. Promovem assim o estudo bíblico direcionado aos membros e visitantes, que são divididos em grupos por faixa etária.

A Escola dominical faz parte do trabalho ministerial dos líderes evangélicos, instruindo os membros e os novos ingressos na igreja nas Escrituras, ou seja, tanto ela nivela o conhecimento como introduz o novo membro à doutrina religiosa. Tanto as igrejas tradicionais históricas, como as Presbiterianas, Batistas, Metodistas e Luteranas quanto as chamadas avivadas ou renovadas como as pentecostais e neopentecostais possuem Escola Dominical.

Na Igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil (CCB) não há Escola Dominical segundo o modelo adotado na grande maioria das igrejas evangélicas. Há, porém, geralmente aos domingos, de manhã, à tarde ou á noite, cultos denominados “Reuniões de Jovens e Menores” destinados a jovens e crianças.

2. Origem da Escola Dominical

Muitos não sabem que a escola Dominical, na sua origem tinha uma proposta de alfabetização de crianças pobres, numa época em que não havia ensino público.

O jornalista inglês e clérigo da Igreja Anglicana Robert Raikes é considerado o fundador da Escola Dominical, em 1780, na Inglaterra. Raikes pregava o evangelho nas prisões e sensibilizou-se pelos jovens delinqüentes que encontrava. Percebeu que as crianças que trabalhavam a semana inteira nas fábricas, aos domingos perambulavam pelos becos e cais, aprendendo toda sorte de vício e praticando os piores delitos e o fim era caírem na prisão. Raikes estudou uma forma de mudar a vida daquelas crianças e o meio encontrado foi a Escola Dominical.

Estudiosos apontam que antes de Raikes em diversos lugares religiosos implantaram estudos bíblicos aos domingos, mas a Escola Dominical como instituição foi iniciada por Raikes.

Raikes convidou as crianças para se reunirem todos os domingos para aprender a Palavra de Deus e outras matérias como língua pátria, história, matemática e instrução moral e cívica. Teve que fornecer-lhes a roupa limpa “de domingo” para poderem assistir às aulas, pois eram muito pobres. Contratou quatro senhoras para ministrar as aulas e enfrentou oposição de religiosos conservadores, mas tocou em frente seu projeto.

Após um período experimental, em 1783, Raikes divulgou os resultados do seu trabalho no jornal de sua propriedade. Logo denominações e organizações não-denominacionais e cristãos filantropos, abraçaram a idéia e se empenharam em criar escolas dominicais ou contribuir para sua manutenção. Em poucas décadas, o movimento se tornou extremamente popular e sendo implantado em todo o mundo crescendo sempre numericamente de ano pra ano.

3. Escola Dominical no Brasil

A Escola Dominical no Brasil segue o modelo que surgiu nos Estados Unidos muito tempo depois oferecendo apenas conteúdo curricular bíblico, não sendo prioridade a aprendizagem da leitura e da escrita de seus alunos, mas sim o conhecimento bíblico, a edificação espiritual, o discipulado, a integração e a evangelização.

A Escola Dominical no Brasil foi trazida pelos missionários americanos da Igreja Metodista que chegaram ao Rio de Janeiro em 1836. Esta primeira escola com 30 alunos para estrangeiros, incluía alguns brasileiros e foi a pioneira.

O casal de missionários escoceses Robert e Sara Kalley são considerados os fundadores da Escola Dominical no Brasil, em 1855, na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Esta Escola Dominical deu origem à Igreja Congregacional no Brasil. Batistas e presbiterianos também fundaram escolas dominicais e quando o movimento pentecostal chegou ao Brasil em 1910 através de Louis Francescon, já havia escola dominical em São Paulo desde 1864, fundada pelo Rev. Alexander L. Blackford .

4. Material

No início as crianças aprendiam a ler utilizando a própria Bíblia como livro, e a escrever, copiando passagens da mesma. Com a popularização das escolas, foram desenvolvidos materiais específicos para facilitar o aprendizado.

Hoje as editoras evangélicas publicam livros, livretos e apostilas com material de estudo e atividades para serem seguidas pelas Escolas Dominicais, de acordo com a faixa etária. Fornecem até mesmo o treinamento para os professores, e estes geralmente procuram seguir um currículo preparado para o ano todo. Através de revistas, cartazes, jogos e recursos áudio- visuais os alunos ouvem as histórias bíblicas, aprendem sobre a vida dos personagens bíblicos e memorizam passagens bíblicas. O aprendizado é medido pelo quanto o aluno consegue memorizar, ainda que possa não entender o que está memorizando. Algumas Escolas Dominicais tem um sistema de recompensa para os melhores alunos, e este costume de premiar os melhores já vem desde o início no século 19, para estimular a participação e a freqüência na ED.

5. Modelo educacional da Escola Dominical

Reproduzo abaixo reflexões sobre Escola Dominical, que constam na tese de mestrado de Lea Rocha Lima e Marcondes sobre formação de professores para a Escola Dominical. No seu trabalho de pesquisa a autora faz muitas constatações sobre a realidade das Escolas Dominicais, analiza as propostas pedagógicas das editoras, a formação dos professores e a assimilação de conteúdo pelos alunos e propõe mudanças.

Este texto é muito importante para os crentes CCB compreenderem o que é Escola Dominical. Quem acha que o modelo de reuniões de jovens e menores adotado na CCB é ultrapassado e improdutivo para os jovens, deve ler o texto abaixo e refletir.  Igrejas que possuem seminários, escolas teológicas e sua liderança não é leiga enfrentam não poucos desafios. A CCB, que não possui nada disso e ainda preserva a tradição oral precisaria mudar radicalmente para poder implantar Escola Dominical,  mudando totalmente sua forma de ser igreja para colher resultados semelhantes.

Percebemos também que o recitativo de versos na CCB tem o propósito de memorização de passagens bíblicas e mostra a influência do sistema implantado na Escola Dominical e não tem nada de excepcional revelação. A ênfase em memorizar conteudos tem a ver com um sistema pedagógico de ensino, que realmente está ultrapassado, em face das mudanças tecnológicas atuais.

Kit para Escola Dominical
Visão educacional das igrejas evangélicas brasileiras


As igrejas evangélicas, de um modo geral, têm uma visão semelhante sobre o que é educação. Quando se fala em educação, ela se refere principalmente à Escola Dominical e mais especificamente às classes das crianças e adolescentes (de aproximadamente 2 anos até cerca de 15 anos).


Quanto às outras atividades que acontecem na igreja: classe de jovens e adultos, grupos de casais, encontros e até o próprio culto não são vistos como fazendo parte do processo educacional da instituição, mas sim como atividades da igreja. Segundo a autora do presente trabalho, não há compreensão real do que seja educação no sentido mais amplo do termo e muito menos que ela acontece em qualquer faixa etária e em outras atividades fora da Escola Dominical, infantil e juvenil.


Os líderes e responsáveis pela comunidade se referem à importância de educar as crianças, de atraí-las para os princípios de Deus através das suas atividades de aprendizagem. Há uma dicotomia explícita entre a fala e a ação educacional. Fala-se bastante em ensinar e preparar a criança, pois “ela será a igreja de amanhã”, em dar a ela conhecimentos bíblicos para que não se desvie destes ensinamentos, mas a visão da importância do preparo dos professores ainda é pequena ou distorcida em muitas igrejas, assim como o cuidado e adequação das classes e dos materiais utilizados. Conseqüentemente, nestas circunstâncias, o processo pedagógico enquanto tal tem uma reflexão restrita.


Em igrejas com a visão de educação mais restrita, a verba mensal ou anual destinada para a Escola Dominical para compras de materiais e investimento nas classes é mínima ou até inexistente, compram-se apenas as revistas do professor e do aluno. O investimento no espaço pedagógico, tanto físico (classe, materiais, brinquedos) quanto pessoal (cursos para professores e auxiliares) torna-se pequeno, pois não se vê corretamente as necessidades nesta área. Conseqüentemente a compreensão sobre processo ensino-aprendizagem, sobre a epistemologia no contexto religioso e sobre a função pedagógica da igreja como participante da formação do indivíduo é pequena.


Convém ressaltar que os professores são voluntários, leigos em pedagogia e/ou teologia, que se apresentam ou são convocados. A motivação básica destes professores é o entusiasmo pela sua fé e o desejo de compartilhar com os outros a sua vivência com Deus. A maioria deles não tem nenhuma ou tem pouca noção do que é educação, aprendizagem e com freqüência não tem preparo pedagógico. O conhecimento que tem para exercer o papel do professor é decorrente do seu próprio estudo bíblico. A maioria das instituições evangélicas acredita que para ensinar basta o professor ser professo na fé e ter um relacionamento pessoal com Deus7, que o quê ele conhece acerca da Bíblia é o suficiente para ser professor. É pouco enfatizada a necessidade de preparo pedagógico para assumir uma classe. Este cenário pedagógico tem sido questionado e repensado nos vários contextos evangélicos nas últimas décadas.


De um modo geral o ensino nas igrejas procura levar o aluno ao contato com as grandes realizações bíblicas, fatos, acontecimentos, história dos personagens. A metodologia empregada é mais voltada para o exterior: programas e atividades. A proposta nas aulas e estudos de grupos em qualquer faixa etária é incorporar informações sobre a Bíblia indo das mais simples as mais complexas.


O papel do professor é garantir a aquisição do conhecimento, informações e fatos apresentados para levar o aluno a assumir um compromisso individual e responsável com Deus. O professor repassa e transmite informações para o aluno repetir e reproduzir o modelo. Dono do conhecimento bíblico, o professor, na maioria das vezes, é distante do aluno e o seu papel está ligado à transmissão de conteúdo predefinido. Pelo fato da maioria dos professores das EBDs serem leigos na área pedagógica, eles têm pouco conhecimento da natureza da atividade psíquica do aluno, seu desenvolvimento psicológico, cognitivo, emocional e da relação destes com a aprendizagem.


Ele é o agente do conhecimento bíblico e trata todos igualmente. O aluno (criança) é mais receptivo do que questionador. Nas classes de jovens e adultos há maior diálogo, mas nas classes de crianças a baixa compreensão do significado do que se fala leva ao desinteresse e à evasão. É dada ênfase na reprodução do conhecimento. As aulas são preferencialmente expositivas e o professor trabalha com figuras, flanelógrafo, relatos, dramatização, retroprojetor (quando há) e quadro negro ou branco.


Nesta visão a educação fundamenta-se em 4 pilares: ouvir, ler, memorizar e repetir, acompanhados de receitas comportamentais prontas, ordem e repetição, valorização da disciplina e obediência, os temas são tratados de forma seqüencial, (cronologia bíblica) ordenada e com pouca relação com os outros campos de conhecimento ou vivência do cotidiano. Os programas e atividades têm prioridade sobre a aprendizagem e há desconhecimento do processo da mesma. O envolvimento emocional e afetivo do professor com o aluno se restringe à sala de aula. O ponto fundamental é o produto da aprendizagem: o que o aluno reteve dos fatos bíblicos e os textos decorados. O conhecimento acontece pela memorização e a aprendizagem pela exatidão na reprodução verbal. Há preocupação com o modelo a ser imitado, os fatos e histórias bíblicas são exemplos para serem seguidos sem a devida contextualização. Convém ressaltar que os professores têm uma dedicação e sinceridade autênticas em relação ao seu desejo de ensinar a Bíblia, recorrem aos seus próprios modelos internos de professor e também às orientações que o material didático que utilizam oferece.


A aprendizagem é avaliada pela memorização e pelo comportamento apresentado não se questionando ou investigando se houve compreensão e significação. Segundo Pozo (2002, p.211) na aprendizagem mnemônica ou por repetição, os conteúdos estão relacionados entre si de modo arbitrário e carecem de qualquer significado para a pessoa que aprende. As crianças adquirem um bom conhecimento das histórias bíblicas e de seus personagens, mas fazem pouca relação com o cotidiano, com outras áreas de sua vida e com as suas outras aprendizagens. A espiritualidade fica separada do seu contexto de vida.


Este modelo de educação ainda é muito utilizado e tem o seu valor na história das igrejas evangélicas. Ele acompanhava de certa forma, há décadas, o que acontecia na educação secular e não se conhecia outra forma de ensinar. A partir do momento que novos modelos de educação foram surgindo e sendo aplicados no contexto escolar, o modelo aplicado nas igrejas foi ficando cada vez mais distante da diversidade de estímulos, interesses e envolvimento com a aprendizagem a qual a criança estava exposta fora da igreja. Convém frisar que a análise descrita se refere apenas às questões pedagógicas e metodológicas do ensino utilizado nas igrejas não sendo proposta deste trabalho abordar em momento algum a ação sobrenatural de Deus no processo educacional, independente do método, paradigma utilizado e formação ou não do professor.


Nas duas últimas décadas do século passado o modelo de educação das EBDs apresentado acima começou a ser questionado e repensado isoladamente por líderes insatisfeitos com os resultados dos trabalhos na EBD. Começou-se a buscar materiais didáticos diferentes, cursos preparatórios para professores e novos recursos.


Líderes de educação cristã evangélica, pastores, líderes de igrejas e professores preocupados com o processo de aprendizagem dos princípios bíblicos e sua adequação ao contexto do aluno têm levantado questionamentos importantes nessa área:


• Como o professor pode ensinar um princípio bíblico que faça sentido ao cotidiano do aluno?


• Como o indivíduo (tanto professor quanto aluno) contextualiza os princípios apontados nas histórias  bíblicas para os dias de hoje?
• Saber histórias bíblicas e memorizar versículos ensinam o aluno a ter um relacionamento genuíno com Deus?
• Qual é o significado que os textos memorizados tem na vida do aluno, no seu cotidiano?
• Se o professor tem como um dos objetivos ensinar o aluno a se relacionar com Deus, como é a sua própria relação com Deus? Pois afinal, ele é modelo...


Alguns conceitos educacionais vem sendo construídos a partir de uma prática do ponto de vista brasileiro, que é mais afetivo do que comportamental como a norte americana.


Para Morin (2001. p. 65) a educação deve contribuir para a auto-formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão. Zabala (2002, p. 45) afirma que formar para um desenvolvimento humano comprometido com a melhoria da sociedade implica uma educação para a complexidade. A educação, segundo Zabala, visa desenvolver a pessoa nas seguintes dimensões:


• Dimensão pessoal: aprender a pensar por si mesmo e desenvolver autonomia;
• Dimensão interpessoal: ser educado para viver junto em comunidade;
• Dimensão social: aprender a participar ativamente da transformação da sociedade, ser cidadão consciente da sua participação na construção da história;
• Dimensão profissional: ser facilitado o desenvolvimento das suas capacidades profissionais;


A pesquisadora do presente trabalho acrescenta a importância do desenvolvimento da dimensão espiritual do indivíduo no que se refere à busca de resolução de suas questões existenciais e da espiritualidade como referencial de valores humanos e éticos. Segundo a percepção da pesquisadora o acréscimo da dimensão espiritual na educação do indivíduo contribui de maneira significativa à sua organização interna, o auxilia a lidar melhor com seus limites e dificuldades, bem como amplia suas potencialidades. É necessário “tecer junto”: reflexão e ação, espiritualidade e cidadania, educação e construção social através do diálogo entre comunidade e membros, liderança e liderados, professores e alunos, pais e filhos. A visão de Zabala e os aspectos da dimensão espiritual apontados pela pesquisadora seriam o caminho ideal para a construção de uma proposta pedagógica contextualizada no âmbito evangélico. A igreja, juntamente com outras instituições educacionais, tais como família, escola e sociedade, teria o papel fundamental de auxiliar o homem no seu desenvolvimento preparando-o para ser capaz de falar e agir baseado em razão e argumentação justificada e legítima, de forma a poder atender as demandas sociais, culturais, econômicas e éticas do seu meio social.

 
Fonte:

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM EDUCAÇÃO CRISTÃ: UMA LEITURA A PARTIR DA EXPERIÊNCIA COM A ABORDAGEM RELACIONAL

MARCONDES, Léa Rocha Lima e

Clique no link para ler o artigo completo:  A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM EDUCAÇÃO CRISTÃ

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