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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Santo pecador


Desde muito cedo, nós ensinamos aos nossos filhos a terem noção de quem eles são, isto é, da sua identidade, e a identidade de uma pessoa é muito importante, pois trata-se do conjunto de características que definem uma pessoa.

Desde que Deus operou a obra de salvação na nossa vida, sabemos que somos cristãos, mas alguns evangélicos tem adquirido o hábito de se nomear pecador, baseados em algumas passagens da Bíblia ou pregações de alguns falsos mestres, e mesmo irmãos da CCB tem se contaminado com este pensamento de que somos cristãos pecadores.

Em nenhum lugar das Escrituras um crente que experimentou a fé salvadora em Jesus Cristo é chamado de pecador. A falha em entender alguns versos bíblicos, aparentemente, tem levado muitos a cometer este engano de se auto-denominar "cristão pecador".

O primeiro argumento usado para defender este engano é a frase de 1 João 1:8,9: Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados.

Eu entendo que João está dizendo que ainda há um mal em nós, que se chama pecado, que herdamos de Adão e só terminará na morte. Pecados são as transgressões que cometemos na presença de Deus, e para isso, a Bíblia nos ensina a confessar para obter o perdão de Deus.

Esta passagem mostra que não estamos livres de pecar, e acredito, que no sentido estrito do termo, no momento em que desobedecemos a Deus, naquele instante somos pecadores, mas a  passagem acima não apóia a tese de que um cristão deve andar dizendo que é um pecador, ainda que possa parecer uma questão de semântica do tipo: quem peca é pecador. A ação do Espírito Santo no crente não o deixa viver pecando, mas o conduz num processo contínuo de santificação, sem a qual ninguém verá a Deus.


Afirmar que somos pecadores, é desconsiderar todo o ensino contido no Novo Testamento a respeito da missão de Jesus de chamar os pecadores e convertê-los ao Seu Evangelho. A Bíblia nos diz em Romanos 5:6,8: Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.
Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.

Paulo nos diz que ímpio e pecadores são a mesma coisa e Cristo morreu por nós quando ainda estávamos neste estado deplorável de pecadores.  Uma vez alcançado a salvação,  na Bíblia não se chama nenhum cristão de pecador.  Fazer isso é invalidar a obra redentora de Cristo na cruz, pois, de que adiantou Ele morrer na cruz pelos pecadores, se ainda continuamos pecadores.

No Novo Testamento a palavra grega para pecador é HAMARTOLOS, e o significado desta palavra no grego bíblico não pode ser aplicado a um cristão:

"dedicado ao pecado, o pecador, que não está livre de pecado, eminentemente pecaminoso, especialmente perverso , todos os homens maus, especificamente dos homens marcados com certos vícios ou crimes, cobradores de impostos, gentios"

Ela aparece cerca de 45 vezes no NT e em nenhum momento se refere a um cristão, mas sempre a pessoas que ainda não conhecem a Jesus, como por exemplo, nos relatos onde Jesus comia com os publicanos e pecadores , ou sobre os dois judeus que oravam no templo; ou a crentes infiéis, que estão afstados da verdade, como escrito em Tiago 4, que diz: Alimpai as mãos pecadores! Trata-se de crentes amigos do mundo, invejosos, orgulhosos, adúlteros e que não estão resisitindo ao diabo como deveriam e que se desviaram do caminho da salvação.

Além de ser anti-bíblico se nomear pecador, esta afirmação pode carregar um outro significado embutido: não estranhe o que eu faço de pecaminoso, pois eu sou pecador, todos nós somos.  Neste ponto, muitos se baseiam na eterna segurança, pregada pelos calvinistas, achando que podem pecar à vontade, pois pecados passados e futuros, já foram todos perdoados.

Outra passagem muito mal interpretada, utilizada para justificar a máxima “sou pecador” é 1 Tim 1:15, onde Paulo diz:

Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitaçäo, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.

Realmente, se pegarmos este versículo fora de contexto, parece corroborar esta tese de que somos pecadores, com Paulo sendo o pior dos pecadores., mas quem já leu o Novo Testamento sabe perfeitamente que Paulo jamais pode ser considerado o pior dos pecadores, após a sua conversão.

Paulo está justamente falando da sua vida anterior ao evangelho quando era blasfemador e perseguidor, mas ele alcançou misericórdia, como nós alcançamos também, e nesta nova vida, Deus o achou digno de colocar no ministério. Vejam o que Paulo diz no mesmo capítulo Rom 1:

(1:12) E eu agradeço a Jesus Cristo, nosso Senhor, que me permitiu, pois Ele contou-me fiel, pondo-me no ministério (1:13), embora eu era blasfemador, perseguidor, e um homem arrogante, mas eu alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. (01:14) E a graça de nosso Senhor foi imensa, com fé e amor que estão em Cristo Jesus.

Paulo fala no passado: Eu fui ..., ele não diz que ainda É, pois se ainda fosse, seria indigno de estar no ministério. Ele ainda frisa bem: porque o fiz na ignorância e na incredulidade.

Agora vejamos o versículo 16:

Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna.

Novamente notamos que ele fala no passado, dizendo “alcancei misericórdia” e se põe como o principal pecador, e como um exemplo, não no sentido atual de alguém que vive pecando, mas exemplo de como o poder e a graça de Deus podem transformar a vida de alguém que foi tão pecador e transformá-lo num apóstolo de Jesus Cristo, conforme expressão usada por ele nas cartas: Paulo, apóstolo de Jesus Cristo.

Em outra parte Paulo diz de si mesmo:

Atos 24:15-16 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.
E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens.

Mais uma vez percebemos que o apóstolo evidentemente, se insere no grupo dos que são “justos”, procurando sempre manter uma consciência limpa. O cristão que eventualmente peca diante de Deus, se arrepende, confessa e busca o perdão divino. Não vive pecando, mas praticando a justiça e portanto não tem como se identificar como pecador.  Esta identidade é atribuída àqueles que vivem habitualmente pecando ou se desviaram da verdade, conforme Tiago diz no cap 5: 19,20 Irmãos, se algum dentre vós se tem desviado da verdade, e alguém o converter, Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados. Vejam quem é chamado de pecador, aquele que se desviou da verdade e segue um caminho errado, este é pecador e sua alma segue para a morte, se não se converter, mas nós não seguimos um caminho qualquer, mas Jesus Cristo.
Santos e justos

Em diversas passagens os pecadores são contrastados com os justos, e esta palavra é usada por Jesus para referir-se aos salvos, como em Mat 13:43 Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai.

Em outras são chamados de santos, mas esta palavra não quer dizer que se tratam de pessoas excepcionais ou àqueles que morreram e foram canonizados pela igreja Católica, mas de pessoas separadas do mundo para viverem uma nova vida em Cristo, ainda sujeitos a errar, cair e serem levantados.

Assim são chamados os que crêem em 2 Tes 1:10: Quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que crêem (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós).

Judas 1:3 Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.

Paulo, na sua carta aos Romanos 1:7   A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Se temos que batalhar é porque não estamos livres de cair neste mundo, mas pela fé em Cristo, somos crentes, santos e não pecadores cristãos. Não é apenas uma questão de palavras, mas de identidade, de saber quem somos na presença de Deus e o que nos aguarda ao final da nossa carreira.

comumccb.blogspot.com

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