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sábado, 3 de dezembro de 2011

NEM TERNO E NEM GRAVATA

NEM TERNO E NEM GRAVATA As mudanças na identidade
pentecostal assembleiana.
JAIME SILVA DELGADO

O autor Jaime Silva Delgado, é membro da igreja Assembléia de Deus e apresentou em 2008, esta Dissertação no programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.
 Esta tese de mestrado faz um estudo das mudanças ocorridas na igreja Assembléia de Deus ao longo de décadas de existência.  O autor também fala das outras igrejas pentecostais e protestantes, da relação da AD com elas e as influências recebidas. 
Assim como a Congregação Cristã,  a igreja Assembleia de Deus manteve por muitas décadas a ênfase nos usos e costumes. Um crente assembleiano  era facilmente reconhecido pela sua identidade estética, cabelos curtos e a austeridade da roupa nos homens, o rosto sem pintura, cabelos compridos e uso de saias longas para as mulheres. O crente da AD não seguia a moda, que denominavam de mundanismo, mas atualmente o pentecostal assembleiano não vê mais problemas em acompanhar as tendências da moda, ditados pelo gosto e inventividade dos estilistas.

Segundo o autor, durante muito tempo na AD, houve o chamado Culto de Doutrina, onde os Dirigentes  e Presbíteros ministravam a doutrina, que ou era um estudo em relação à conservação de usos e costumes, ou eram mensagens direcionadas a algum membro que se achasse em falta com os padrões éticos, culturais e doutrinários da Igreja. Também menciona a prática de o membro infrator ir à frente pedir perdão à congregação e alguns serem disciplinados e até proibidos de participar da Ceia.

A questão dos usos e costumes serviu de motivo para as divisões na AD, gerando diversos ministérios e o tema ainda é debatido entre pastores e nas diversas convenções da igreja.

Ainda segundo o autor, os pastores individualmente estão se tornando mais tolerantes com as mudanças nos usos e costumes. Oficialmente a AD não liberou nada, mas na prática, está ocorrendo uma adaptação ao modo de ser crente  presente no neopentecostalismo, onde usos e costumes sempre foi assunto secundário.
 
O autor explica ainda que os usos observados e ainda alguns preservados pelos pentecostais da AD é o que pode ser chamado de Uso Condicionado, pois sua observância se dá pelo conjunto do grupo social. As ações dos assembleianos estão significadas identicamente pelos outros membros, ou seja, possuem um fim, que é o de mostrar os sinais de sua conversão, e mais ainda, elementos definidores ou caracterizadores de um grupo. A saia, o rosto sem pintura, e o comportamento recatado, seriam então, sinais visíveis não de santidade, mas de identidade pentecostal.

Neste aspecto de usos e costumes, a semelhança é muito grande com a prática da CCB. O rigor de ambas nesta parte, no passado, levou muitos irmãos a pensarem que as duas igrejas tiveram a mesma origem e depois separaram-se.  Nota-se que atualmente, muitos líderes na CCB também tem abrandado a cobrança sobre usos e costumes e lentamente as mudanças vão ocorrendo, principalmente entre os jovens. 

A tese prossegue abordando as mudanças que tem ocorrido nos cultos da AD, sob a influência do neo-pentecostalismo.  Neste aspecto, a CCB se diferencia muito da AD, por manter praticamente intacta a mesma forma de culto do início, não abraçando as novidades surgidas a partir da chegada da Igreja do Evangelho Quadrangular. 

Abaixo reproduzo na íntegra, a parte da tese que trata da relação da AD com as outras igrejas evangélicas, especificamente com a Congregação Cristã, páginas 100 à 103.
3.1 As outras igrejas.
A prática de diferenciar e de sustentar a noção de uma identidade através da busca distintiva de variados aspectos é bastante comum, basta que o outro da relação possua características marcadamente distintivas. Este fato não se dá somente no caso da religião, propósito deste trabalho, mas também em classificações como as que delimitam os períodos históricos, a exemplo das designações de povos agrafos, primitivos ou bárbaros em relação aos civilizados. A religião é um exemplo mais palpável do interesse que os homens têm de se distinguirem. Todas elas buscam mostrar como as outras são para numa atitude propagandista estabelecer sua identidade, que em linguagem religiosa dá-se pela apologética.
“Os outros são assim, e estão equivocados”, ou “são hereges”, ou ainda “servem aos demônios”. “Quanto a nós, somos melhores, e pertencemos ao verdadeiro Deus”. Essas idéias podem retratar a forma diacrítica da relação entre as religiões. Produzem-se ainda  esdobramentos do tipo: “Em nossa igreja há solução para todos os problemas”, ou “Aqui a solução vem mais rápido”. Assim a delimitação entre o nós e os outros produz a identidade, essa então, é sempre construída em um processo contrastivo, sendo que sua manutenção é um processo reflexivo.
A propaganda tem um papel de suma importância na delimitação às vezes tênue das diversas ofertas religiosas do mundo moderno. Ela é sempre feita da mesma forma, ou seja, tem uma estrutura lógica, assim ela rechaça negativamente a outra oferta, ou a mostra como algo de pouca eficácia. Enquanto isso, apresenta a oferta mais eficaz, aquela que proporciona soluções imediatas. Os clientes possuem opções variadas, e a relação serviço satisfação pode não estar simplesmente no melhor produto, ou em sua utilidade, mas na forma como ele é apresentado, na maneira como o vendedor o apresenta, ou no tratamento do vendedor e no conforto que a loja proporciona.
De forma sutil, ou agressiva, as igrejas disputam espaços, reconhecimento social, e conquistas em esferas do poder, sendo esta ultima uma estratégia de intensificação das duas primeiras.  A forma de alcançar os objetivos das igrejas seguem a mesma lógica do capitalismo. O que antes poderia ter sido apenas de limitação de identidades, na Alta modernidade  ultrapassa intenções primordiais, pois as igrejas não somente querem oferecer a salvação, mas participam de uma acirrada disputa pela hegemonia no mercado de bens simbólicos.
Na busca de ofertar o melhor serviço salvacionista, as igrejas que antes satanizavam as outras e suas práticas, hoje utilizam as práticas ditas “satânicas”, o discurso muda conforme a necessidade da oferta no mercado.  A semelhança cada vez maior entre as igrejas deixa difícil à primeira vista, perceber as características identitárias das mesmas, a não ser por suas doutrinas, que no fundo aproximam as diversas igrejas do cristianismo. A delimitação da identidade pode ser percebida pelas mediações entre o fiel e o sagrado, ou naquilo que melhor as igrejas oferecem, nas ênfases de uns ou outros serviços, que vão desde uma simples oração intercessora, até um lugar na cidade celestial.
Não precisa muito para que uma igreja, procure colocar as outras em desvantagem. No caso aqui, a Assembléia de Deus critica a sua irmã rival, a Congregação Cristã no Brasil, com fatos de pouca relevância, se levarmos em consideração o todo doutrinário do cristianismo, que está mais alicerçado em doutrinas como: a trindade, o nascimento virginal, a morte e ressurreição de Jesus etc.
Antes de analisarmos a forma como a AD apresenta as outras denominações faz-se necessário discorrermos um pouco sobre elas, que na visão da AD são igrejas que apresentam heresias; erros teológicos, ou visões deturpadas do cristianismo; para depois compreendermos o fato de a AD ter copiado as práticas e crenças de suas concorrentes. As publicações de livros e revistas editados pela CPAD vez por outra lançam edições com títulos “Seitas e Heresias”, “Heresias e Modismos”. Nos quais contêm a refutação as outras igrejas. A analise deste material é importante para percebermos aquilo que a AD copiou, rechaçou, voltou a copiar e aparentemente, e contraditoriamente, continua a condenar.
A identidade assembleiana é uma identidade reflexiva e apologética. A forma que a AD tem de apresentar as outras igrejas para os seus membros, mostrando os equívocos e heresias, nem sempre pode ser entendido como reforço contrastivo da identidade, mas também de evitar que os membros se sintam influídos por outras ofertas, numa tentativa de eliminação de possíveis rivais, e ainda de inibir que líderes possam pretender copiar as práticas condenadas. Assim a AD através de suas publicações procura mostrar os “erros” de religiões que não exatamente ameaçam sua identidade, ou representem concorrências por espaço, no mercado de bens de salvação.
Para iniciarmos nossa discussão temos a Congregação Cristã no Brasil. Esta igreja foi fundada em 1910 por um imigrante italiano, no bairro do Brás, em São Paulo. Esta igreja pentecostal herdou do calvinismo presbiteriano a Doutrina da Predestinação, não possui pastores, não obriga a dizimação, não busca erudição bíblica, muito menos secular, não faz uso dos meios de comunicação, seu evangelismo é do tipo pessoal, quase não crescem em números, não se envolve em política, fazem uso do osculo santo, etc.
Na Congregação Cristã no Brasil, tudo começa com muita serenidade. As pessoas vão  chegando se ajoelham e oram, as mulheres de um lado usando véus na cabeça, de outro lado homens de cabelos curtíssimos. Um hino é proposto, todos cantam, outro hino é entoado e até que chega o momento em que um ancião ou qualquer outro membro inspirado pelo Espírito Santo comece a pregar.
A CC é caracterizada pelo “iluminismo” religioso, há uma preponderância da inspiração direta. “O papel da bíblia é pequeno sendo mais um livro de oráculos, do que uma revelação a ser  meditada sistematicamente” (LEONARD, ap., FRESTON, 1904, p.104). Os membros da CC até para viagens, negócios, casamentos, buscam a “revelação” de Deus. Todas as decisões na CC devem ser confirmadas por revelação. Os sermões nunca são preparados, nem se sabe de antemão quem vai pregar; Deus revela na hora. Toda literatura cristã é rejeitada, pois a cultura e inútil para a fé; “outras luzes não queremos” (RESUMO DA CONVENÇÃO DE 1936, apud FRESTON, 1996, p. 104).
Até a década de 50 a CC era a principal concorrente da AD. Segundo Freston a primeira teve um crescimento inicial rápido,95 mas foi ultrapassada pela Assembléia de Deus no final dos anos 40. Na literatura assembleiana, mais especificamente as revistas da Escola Dominical, as informações sobre a CC, estão sempre apontando seus “equívocos” doutrinais.
As revistas antigas de forma mais agressiva fazem uma performance negativa da CC.  Essa igreja já representou ameaça à AD, pois ambas faziam proselitismo entre elas. Na prática do evangelismo pessoal da Congregação Cristã, os membros ao se depararem com um assembleiano, esforçavam-se para atraí-los à sua igreja. Até recentemente é possível verificar esse tipo de acusação, como na revista da Escola Dominical de Jovens e Adulto do 2º trimestre de 1997, há uma acusação pertinente de que os membros da CC se preocupam mais com o evangelismo dos crentes de outras denominações, em detrimento do anúncio do evangelho.
Algumas críticas que os assembleianos fazem aos congregacionais são características do protestantismo como um todo, como na questão do proselitismo, o uso do vinho alcoólico e no uso ou não uso da Bíblia “correta ou incorretamente”, e outras críticas sem menor importância, como o uso do osculo santo, do casamento na igreja, apresentação dos recém nascidos, uso do véu, entre outros. Outras acusações são polêmicas como o da predestinação, ordenamento de mulheres a cargos, e a questão da desteologização do pentecostalismo muito criticado também pelos protestantes históricos.
Aquilo que os assembleianos ainda criticam, talvez tenha sido muito útil para a própria AD, uma vez que a CC ao não fazer uso do pastorado, da não cobrança do dizimo, do não uso dos meios de comunicação e a doutrina predestinacionismo, enfim, foi, segundo Freston (1996) a causa do pouco crescimento dessa igreja, deixando de ser uma ameaça às outras, como um dia fora para a AD. Assim as críticas a CC deveriam se transformar em elogios, uma vez que em uma compreensão do paradigma no mercado de bens de salvação, esta igreja não ameaça ninguém. A critica que a AD faz, do não pastorado e da não coleta sistemática do dízimo, servem no fundo, para argumentar que a CC contradiz a bíblia em relação aos dois aspectos, e assim os autores da AD fazem apologia à liderança, que deve ser respeitada, o pastor é o ungido do senhor, e ao dízimo sem o qual a igreja não sobreviveria.
***
Clique no link abaixo para ler a tese completa em pdf:

NEM TERNO E NEM GRAVATA

7 comentários:

Hélio disse...

Irmão Valdeci,

Muito interessante o teor deste artigo, valeu pelo texto.

Li a respeito das denominações considerarem a CCB como uma "igreja calvinista" no sentido soteriológico do termo (já havia lido um documento batista alegando a mesma coisa)

Bem. Nesse tempo em que congrego tenho ouvido pregações dando enfase à doutrina da predestinação absoluta, daquela em que o predestinado por Deus será chamado, justificado e chegará fiel até o fim em sua jornada cristã pelo poder Deus em perseverar sua fé no crente.

Mas já ouvi o inverso também. Aquelas pregações em que o salvo, se não vigiar, perde tudo, inclusive a salvação, isso obviamente não é "calvinismo".

Já ouvi até o mais profundo abismo do pelagianismo em que o pregador descaracterizou o propósito do sacrifício de Cristo na cruz dando maior enfase nas obras humanas como meritórias em nossa redenção.

Em fim, é uma "salada teológica".

Fora aqueles que condicionam a nossa salvação em ser batizado ou não na CCB.

Mas gostaria de saber a visão particular do irmão sobre isso.

Você considera que a CCB leva hoje o legado calvinista?

O irmão acredita na doutrina da predestinação em que aqueles que Deus predestinou serão infalivelmente chamados, justificados e por fim glorificados?

Perdoa os rótulos teológicos, é para facilitar nossa conversa (rs).

Pergunto à titulo de saber sua opinião e não com o interesse de entrar em um debate com o irmão.

Deus te abençoe!

Hélio.

Valdeci disse...

Respondendo a sua pergunta: não acho que nossa igreja leva o legado calvinista, nem a de hoje e nem a do princípio. O que vemos é uma mistura de arminianismo com calvinismo.

Confesso que ao tomar conhecimento da doutrina calvinista, achei que explicava corretamente a doutrina da salvação, sendo a solução perfeita para toda questão envolvendo a salvação. Após estudá-la, porém, vi que tem suas falhas, assim como o arminianismo tem e o debate entre ambos não tem fim, de modo que, hoje, prefiro ficar naquilo que aprendi na Congregação, não valendo a pena abraçar inteiramente nem uma e nem outra.

Creio que Deus tem um plano na vida de cada um (determinismo), chama na graça no tempo certo e conservará os seus até o fim. Como calvinistas não sabemos porém, se somos eleitos, assim como os arminianos não sabem se serão fieis até o fim, de onde vem a necessidade de não ficar acomodados, lutando e procurando viver uma vida cristã, cheia do Espírito Santo.

Resumidamente, acreditar como um calvinista e viver como um arminiano, que é basicamente a doutrina geral pregada na Congregação.

Deus abençoe.

Hélio disse...

Irmão Valdeci.

Gostei da sua resposta!

Você já chegou escrever algo sobre os ensinamentos da Congregação Cristã concernente à doutrina da salvação?

Silas Ramos da Silva disse...

Concordo em tudo com a opnião do irmão Valdecir.
Deus que abençoe.

Anônimo disse...

Esse Pastor está por fora a única E Verdadeira Assembléia de DEUS é a Assembléia de DEUS No Brasil mais conhecida por todos como Assembléia de DEUS Ministério Belém essa chegou junto com a Ccb no Brasil em 1910 essa Assembléia Sim NUNCA mudou sua Doutrina e até hoje respeita os usos e costumes. agora tem uns clones umas cópias da Assembléia de DEUS por aí usa o nome da igreja mas não faz parte dela e aí liberam as suas doutrinas aí todos pensam que não existe mais doutrina na Assembléia de DEUS estão enganados.

paulo jose disse...

Eu queria saber se os missionários que iniciaram a assembleia no Brasil deixaram de obedecer a doutrina da igreja batista e formaram outra igreja.Quero saber também por que alguns irmãos da assembleia acham que só eles sabem mais que as outras igrejas e querem que todos obedeçam à risca os seus ensinamentos e sem ter direito de discordar sobre algumas coisas ?

Joyce Resende disse...

A congregação não mudou a doutrina, quem muda são as pessoas por livre e espontânea vontade e a congregação não aceita tais mudanças.. Com relação ao dízimo me mostre a base bíblica, pois até onde sei Jesus disse: de graça daí porque de graça recebeste. Qual o propósito de se ter o dízimo quando os pastores se usam dele para sua própria sobrevivência?

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